terça-feira, 9 de abril de 2019

Lamentações de mau proveito

Morri, para um mundo dececionado,
fui Beleforonte forte, promissor
montado num rápido cavalo alado,
levado pela crença vaga no amor.

Cri, amei e tentei vingar a minha
família de loucos grandiosos,
mas nunca fui por onde caminha
 a família dos que ficam poderosos!

Ah, glória! Sou um mártir da loucura!
Ruína condenada ao falhanço
de uma obra sem qualquer formosura!
Assim, lento, para o fim avanço,
nesta calma vida, plena tortura!

Oh, como sabem os deuses que me canso!
Sou fraco e parvo, nunca fui
mais que cabeça de gado manso,
que da vida não se aproveita ou usufrui...

Equestre criatura de asas partidas,
fui um bípede depenado sem voar.
Oh, sem quaisquer mágoas vividas,
que rápido se foi o tempo me esgotar!

Em suma, no fim, nunca fui nada,
nem cheguei a voar perto do Sol...
Oh, sem ter tornado divina a vida alada,
fico agora, morto e irado caracol!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

"Morte e Insatisfação"


I

Absorto,
calmo e episódico.
É um viver demente
e aborrecido
com a saudade
do que foi já vivido,
de viver diariamente…
É o desejo irreal
pelo que não é natural,
por aquilo que é
espasmódico:
o que não deixa tranquilo,
mas põe-me outra vez de pé,
pois estou morto…

II 

Espírito morre!
Pinta-se o mundo de cinzento,
por plena falta de talento
o poeta corre!
Galopa, fugindo
de todo o seu tormento.

Está farto!
Não quer viver fingindo,
das paredes de seu quarto
- agora de cor cinzenta,
pelo que o espírito aguenta -,
que passa a vida apenas rindo.

Escreve!
Cria-se e desfaz-se,
porque assim se atreve,
este fanático de viver.
Há de assim morrer,
mas satisfaz-se?

Não!
Porque sua alma
não está leve.
Uma confusão pesada,
pela mágoa arrastada…
Ah, o desejo pela calma
numa jovem vida breve!

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

"Lamentações de Uma Flecha"

Corri, 
fui simples e absoluta flecha
com sonhos absurdos
de chegar a qualquer coisa, 
sem reconhecer que existe a realidade de cair. 
Estava condenado à queda, 
num voo que nunca foi voo, 
porque nunca tive asas.

Tentei voar
sem assistência de penas
bem feitas das palavras alheias,
mas nada consegui...
Falhei, afogado na mediocridade
de mais alguém que se acha superior
por saber escrever por mero acaso...

Os meus sonhos de glórias grandes por outros exprimidos!
Oh, como nunca foram nada
estas demonstrações de fraqueza,
que se sagram agora simples sinais de negação....
O negar do peso inexistente do meu génio!
Ele nunca existiu, porque sou uma farsa,
uma vaga imitação de um poeta puro... 

Finjo-me filosófico, culto e eloquente,
mas continuo sem me convencer de nada disso...
Nunca serei nada disso,
se tento apenas sê-lo ao lamentar-me que não sou nada!
Arremessado pelo mundo à vida,
simplesmente escrevi com grandes sonhos e ilusões... 

Deixem-me descansar, dar às asas queimadas
um fim devido, cair com a ponta da flecha no chão,
para que possa finalmente morrer... 
Nunca fui artista que se prezasse.
Puro? Apenas uma vaga imitação.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Numa dita alameda

Numa dita alameda de pequena cidade, um cafezinho é mergulhado em chamas, enquanto olho atentamente para uma fotografia que procuro esquecer. Mais nada faço, apenas fitar a fotografia e desejar que o estabelecimento pudesse mais depressa arder da minha memória que do papel que o representa – uma antiquada demonstração do futurismo, esta fotografia.
Ossos de província queimam e com eles o resto das recordações que antes fiz em tão pútrido e seco lugar. São os corpos efémeros dos que não duram que vão sendo engolidos pelas chamas de isqueiro que me emprestou um sujeito misterioso, que me disse que queimasse o passado – bom homem, pareço concordar com ele, mesmo dizendo ele que não tem a disponibilidade para falar – e não é com pena que queimam, é com esperança num futuro próximo, porque é apenas isso que poderei querer agora ter.
Que expluda também o café real, não só este figurado! Aprendam eles a ser melhor que o meu passado simples, sem mente que se lhe diga ou cultura de que se fale! Ganhem forças e venham para o mundo real, aqueles que escolhem ficar presos à pequenez a que parecem estar condenados, talvez com medo de qualquer coisa mais que si, quem sabe? Não hei de o saber eu, mas grito na mesma pela sua remodelação de pensamento e por aquilo que é a minha pena deles todos… A compaixão que sinto por estes meus antigos cocidadãos, agora afogados na sua mediocridade – que é voluntária para alguns, vá-se lá saber porquê – é o medo que se fiquem por aí e que por isso se contentem, como fracos apologistas da aceitação de tudo o que lhes aparece à frente…
“Isto não é forma de viver!” grita-me a alma, enquanto as cinzas do tal café me desaparecem das mãos, com elas indo-se também todas as memórias que lá tive, como simples areia de uma praia, que muda eternamente nos ventos fortes

(A.O.)

Tenho grandes ideias

Tenho grandes ideais
na minha ânsia
de uma qualquer imortal glória…

Tive poucos materiais
na minha infância
para que se fizesse qualquer História…

Ah, quero ser imortal!
Tenho sonhos de fama,
assentados numa vaga estupidez!
Não considero o racional.
Morrerei na lama,
destroçado na minha estupidez…

Ideais me que me comovem,
tenho-os nesta eterna espera
pela soberba e imortal fera…
A fera das explosões!
O monstro das revoluções!
Como amo eu as bombas que chovem
quando o homem quer ser profundo,
tentando querer mudar o mundo!

Ah, que rebente a existência!
Pela razão, que se desfaça tudo o que é sagrado!
Dane-se o mundo e o que é guardado
na tradição pela mais pura insistência!
É tremenda teimosia,
ter uma vida e vivê-la assim!
Traz-me profunda agonia,
quem não abrace o frenesim
de uma vida pura e moderna!
Faça-se a alma divina e eterna!

(A.O.)

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Revolta

Tenho grandes ideias de revolta,
para que se renove o espírito da sociedade.
Que se dê à população rédea solta,
para que ocorra uma tão esperada atrocidade.

Não há motivo para não
erguerem as multidões o estandarte

de uma outra maior revolução...
Ah, que isto sim será a arte!

Tenho grandes ideias de mudança,
erguendo uma ponte para outra Era!
Ignoremos esta pacífica herança.
Considerar a calma de outrém? Pudera!

Não há pretexto para negar
o começo de uma nova grande guerra...

Em nome do progresso, iremos enterrar
os costumes de passividade na profundidade da terra!

(A.O.)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Ossos e Espírito

Os ossos dos calmos não são vistosos,
apenas recordações, perdidas no momento...
Não conseguiram estes imbecis ser gloriosos,
no seu viver estagnado e lento...
Mas foram bons, leves e amistosos,
presos em estar parados no tormento
de não ter dias de sangue e violência...
Ficaram vivendo, na serena paciência!

São admiráveis os espíritos inquietos,
aqueles que não se contentam com o nada...
Estes têm ao perigo, à morte e à vida afetos,
pela sua viagem dorida e honrada...
Poderão, eventualmente, não estar corretos,
os que querem uma vivência martirizada?
Como? É uma divina maneira de viver,
a destes que conseguem apenas tentar morrer!

Físicos e efémeros os que são
capazes de viver sem tentar mudar o mundo.
Existem, mas verdadeiramente não
vivem para conseguirem algo que seja profundo!

Eternos e modernos o que ficam,
torturando a sua mesma cultura.
Gritam e, verdadeiramente, crucificam,
qualquer passado de amor ou de ternura!

Os que param a sua vida,
acabam por perder uma alma sofrida...

Os que se sagram dominadores dos seus destinos,
hão de sagrar-se, com certeza, mais que divinos!

Há que deixar de viver na futilidade...

Ah, o atingir a espiritual imortalidade!

(A.O.)

Masoquismo

É tempo de deixar
que seja o mundo dominado pelas gentes
que nada mais querem que pensar...
Que se partam nas alamedas os nossos dentes!

É nada mais que uma rutura
de uma imensa intensidade
aquilo que proponho na cultura...
Que se tragam agora dor e vivacidade!

É uma vaga pútrida mania,
esta masoquista e brutal existência,
que quero que me esmurre com as pedras da agonia...
Que se revele na dor a nossa essência!

É este o lugar para que se faça
uma dolorosa mudança por meio de mutilações,
que atraem a alma como a luz atrai a traça...
Que se encham as ruas de exibições!

Chamo o presente turbulento!
Evoco mais nada que a minha ira!
Gritando, abandonei a lira,
assumindo um futuro bruto e sangrento!
Mas que sentido faz, não ser assim,
derrotado e espancado pelas ruas?
Neste inerente masoquismo que há em mim,
correm-me pela alma sensações nuas!

(A.O.)

sábado, 20 de outubro de 2018

"Árvore"

Uma árvore podre
e subjugada pela ocasião
a uma agonia em maldição do destino,
caminha.

Vai andando,
de ramos jovens e selvagens,
a árvore em direção ao abismo,
como um batalhão de gente,
com um sorriso na cara.

Sabendo de todo o seu medo,
a árvore ri-se a inevitável derrota,
a morte da sua humanidade...
Caminha a pútrida árvore,
de fracos ramos e impuras raízes,
com nada mais que alegria...

Vai morrendo a árvore,
mas
com as almas de quem não sabe da morte. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Quero lamber a vida...

Quero lamber a vida!
Um qualquer viver de divindade,
vivendo na insana futilidade
de ter a alma invertida,
daquilo que se diz normalidade,
por mais que não seja esta vivida!

Não quero uma alma parada,
num pequeno e parvo espaço.
Prefiro ter a vida acabada
e que seja brutalmente escasso
o que me faz puramente viver...
Ah, que quero agora morrer
se não puder ser mais que um fracasso!
Não se dará minha vida por derrotada.

Espero não vir a perder
a vontade, gritando assim, de fúria

Isto é um rimado escrever,
onde se vai cantando o mundo.
Vai-se gritando a minha lamúria
para ser algo mais profundo
Do que aquilo que pareço ser!
Ah, que quero ficar para a História!

Não procuro nada mais que a glória
com a qual não pude crescer...

(A.O.)

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Alberto - Um velho

Foi no metro que conheci o Alberto - não o conheci, nem tão pouco sei se o seu nome será ou terá alguma vez sido "Alberto" -, mas para mim foi sempre esse o nome dele, pelo pouco tempo em que o vi e pensei tê-lo conhecido.
Alberto era um velho, careca e simples, que tinha acabado de sair do dentista, trazendo ainda resultados da sua última consulta nas suas mãos, marcadas pela idade, e entrado no metro de Lisboa, como se para voltar para casa, para junto da sua mulher...
Assumo que Alberto tenha mulher, não querendo ser mais nada que certo, na minha perceção daquilo que era o homenzinho que se sentou brevemente à minha frente num transporte público e que me fez pensar em escrever este texto sobre um velhinho qualquer da capital...
Voltará Alberto para casa, para uma mulher que ama (ou finge amar, apenas, talvez, pelo que poderá ter sido qualquer tipo de casamento de amor fingido - ou talvez tenha o amor acabado à muito e nenhum deles quer morrer sozinho)...
Depois de voltar para casa, verá a programação de sempre: aqueles programas em que gente ganha coisas, que podem ou não ser apresentados por obsesos comediantes, as notícias, que hoje em dia apenas servem para que se oiçam grunhidos do velho homem e, claro, as novelas da mulher...
Alberto não gosta das novelas da sua mulher, nem gostará assim tanto da mulher, mas fica casado com ela pela conveniência de se afastar do medo da solidão; e o que se diz por aí é que a mulher faz exatamente o mesmo!
Este velho de cara chapada, contornos da sua idade, pouco cabelo e óculos pequenos estava à minha frente, sentado com toda a simplicidade de idoso que já viveu muito, que não viverá muito mais, agora, procurando uma rotina normal e ordenada?

Que esconderás, Alberto, meu velho companheiro de carruagem?
Terás visto guerras e revoluções, um mundo em mudança e constante perigo?
Conta-me histórias com as tuas feições apenas, deixa-me que descubra quem és, Alberto...

terça-feira, 9 de outubro de 2018

"Procurando a sensação absoluta"

I
Olho para os meus óculos e suspiro,
mas não há poesia que acalme a minha ânsia!

Tomo as letras como sentimento,
procuro criar essa poesia,
usar palavras para sentir tudo,
porque não o sensacionismo?

II
Desfaço-me em poemas,
devo fazer ódio e alegria nos versos,
mas primeiro...
Primeiro...
Primeiro incita-se a violência...

Para que me desfaça,
terá de haver violência,
maior que aquela entendida num suspiro
mirando um par de óculos...
Violência a sério,
violência à bruta e verdadeira!

III
Corro pelas pedras das ruas
e salto pelo alcatrão das estradas
que acompanham as grandes avenidas.
Nada disto é verdade,
mas é sentido como real.

Tropeço com a rapidez do meu passo,
vindo a rebolar
pelo chão que me vem a rasgar,
esfolar, ferir, mutilar,
até que possa morrer-me totalmente a alma.
Há ódio próprio em tanta chacina,
sendo que me odeio à medida que sou desfeito.

IV
Ali fico,
massacrado como a inocência de uma virgem
que descobre a liberdade de ser cruel...
Ali deitado,
entre carros que me atropelam
e as pessoas que nem me olham,
exaustas do que é moderno...

Totalmente desfeito de mim,
poderei fazer do que sou qualquer um,
provando-se a dor de morrer uma dádiva
de um sensacionismo hiperbólico.

Down My Face Tears Fell

Down my face tears fell
Endlessly like they were under a spell
They created a pool at my feet
Just as quick as my heartbeat

I told myself it was only a dream
That it wasn't what it seemed
Because my eyes were blurry
With the tears' hurry

I shouted some ugly words
That probably hit him like swords
I simply couldn't hold on anymore
I was truly too damn sore

But those words came back to me
Hit me like bullets I couldn't see
Numbed me like the effect of an opium flower
The taste of my tongue plainly sour

In the mirror I looked at myself in the eyes
Watched the tears fall like drops from the skies
I hoped that my bullets or swords
Weren't deadly words 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

"Eternidade"

Se a eternidade nos falhar, 
teremos esta vida e o passado, 
um passado de armas e sangue, 
de conflitos e estrondos
e um presente que é agora apenas, 
sendo passado em meros instantes, 
pela velocidade do tempo. 

A eternidade cai, 
falha, nas garras da humanidade, 
morrendo a mentalidade, 
condenados os grandes ficam à lembrança, 
ao seu trabalho e à sua herança. 
Se a eternidade falhar continuamente, 
haverá espírito algum que suceda?

O pensamento do ser humano
em moralidade e mente coletiva
é mutável e breve, 
como um fôlego de vapor numa manhã fria... 
Somos efémeros, nós humanos. 
Somos instantes, nós espíritos.

sábado, 6 de outubro de 2018

"Poemas finais"

I
A besta alcoolizada rasteja no chão
e penso se acabarei este caderno.
Quanto faltará
até que se encerre o estilo
e se possam demolir as catedrais erguidas
nesta amostra de papel,
produto da intervenção da força humana
na delicada natureza?


Isto não estão a ser estrofes,
nem tão pouco é prosa,
apenas palavras.


A humanidade penetra-me o quarto,
no mais puro dos homens,
aquele que é bruto e irreverente, 
filosófico e estúpido, 
anacrónico e antagónico, 
fora do seu tempo, bem conhece o homem dos bigodes...

Fala da noção da vida
e questiona o que será!

II
O quarto está uma confusão?
O mundo está uma confusão!
Um caos lindo e bruto,
de nada mais que o natural humano.


Merda,
que o espírito é uma confusão,
uma falta de propósito que se conta
nos mais altos padrões de sociedade,
porque é lindo,
porque é vápido e fantástico,
ser-se niilista em tudo!

Armadas destes vermes
patrulham os mares da ignorância,
com esperança de morrer
e andar de quem sabe mais,
por serem mais miseráveis que outros!

Ah, que me agonizam estes!
Pseudo-intelectuais da fúria de viver,
que fazem nada mais que nada,
porque o seu ponto é morrer... 

Exércitos destes ratos desesperados,
invadiram as ruas há muito,
tomaram as avenidas,
infetaram as cidades!

Sem saber vencer-se a si mesmos,
negar a sua filosofia e avançar,
ficam a condenar o lugar onde vivem!

Marcham eternamente
para a sua própria destruição... 

Caminham lentamente para que morramos
todos. 

III
Apunhalados escravos de outros,
que vos deixaram por serem mais que vós,
revoltem-se!

Abandonem o vosso passado,
na tradição não há pensamento
que justifique inferioridade!
Levem acima o acaso e o caos da
fúria de uma boa guerra,
façam tremer as bases e fundações!

E que se mandem abaixo essas bases,
lutem por algo novo,
algo mais que o nada
em que se baseiam...
Encontrem-se na agonia!
Fundam-se no caos, furiosos escravizados,
oprimidos pelo universo,
pela vida e por tudo!

Nada aceitem,
e rejeitem viver por nada,
não se juntando aos que vos oprimem
da vossa própria vontade
de algo melhor.
Partam as correntes do niilismo e da velhice!
Que algo novo brilhe num horizonte livre!

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

"Rossio"


Planos de um pôr do sol de avenida,
inundados de melancolia de saudade futura,
que vão sendo embrulhados numa suave voz…

Estátua de um enorme passado, nesta mesma praça,
que se faz passar bem com a nostalgia,
toda ela é feita de sentir falta de qualquer coisa…

Reunião intersetada de presente e futuro,
cruzando-se alma e seus redores, passado e presente,
no que são momentos significantes de reinos distantes.

Uma fonte que se depara consigo no meio da praça,
fitando prazer momentâneo e glória anterior,
fica estagnada, simplesmente, no momento presente…

Para-se-me a fonte, com as correntes que se partem da história
e abre-se-me a praça como um universo melancólico,
em que reina entre as estátuas a saudade,
mas que me apresenta também a glória dessas mesmas estátuas!

O tamanho de tudo é tonto, ansioso e apavorado,
mas estátuas e monumentos erguidos pelo êxtase da glória
abrem e guiam o caminho para o abismo,
em busca da fé para vencer a vida!

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

"Mundo aos Lunáticos"


A meu ver,
que dancem os lunáticos,
nus nas ruas,
gritando a morte dos seus líderes!

Porém,
que apenas o façam
caso
forem verdadeiramente lunáticos,
sendo
que apenas são lunáticos aqueles verdadeiros humanos.

Que se acordem os doidos das sepulturas,
para correr as avenidas com excentricidade!
Que se cantem eulogias aos antigos mortos,
para que nos façam a nós mesmos modernos!
Que sejam, então, os lunáticos a fazê-lo,
para que estes possam trazer mudança e revolução!

No meu olhar,
pouco é melhor que ressurreição
desta antiga tradição,
apenas para que a matem os lunáticos que dançam,
trazendo depois melhor!

O mundo pertence aos excêntricos,
dos que dançam o desprezo à vida aos que o matam essa mesma dança!
O mundo pertence aos lunáticos,
dos que reclamam a morte aos líderes aos que combatem o inferior apenas por ser inferior!
O mundo pertence aos malucos,
dos que se riem do absurdo aos que nada fazem que não causar o absurdo!

Se à futilidade pertence a existência,
porque não pertence já a existência àqueles que melhor usam a futilidade?
Que assim seja!
Que assim se faça!
Ceda-se o mundo aos lunáticos,
aos excêntricos,
aos malucos!
Deixe-se que governem tudo, para que possam ser as civilizações puramente verdadeiras…
Sim! Puramente humanas, serão agora as pessoas,
lideradas por quem se apercebe da realidade de ser.

Ah, que se dance nas ruas ao sabor desta gente!
Lancem-se desfiles e paradas pelas cidades!
Celebre-se a futilidade e celebrem-se aqueles que a conhecem,
com fogos, motins, paradas e explosões!
Faça-se um ruído extremo,
faça-se um barulho de revolução!
Ah, que se acorde Deus desde as ruas cosmopolitas,
para que Ele se lembre que é inútil!
Para que Ele morra de vez!

Morra Deus!
Perante a berraria humana,
governada pelos lunáticos,
que morra qualquer conceito de divindade!
Que morra qualquer ideia do sagrado,
que pereça a necessidade de acreditar em falsos paraísos!

A era dos que não se escondem por trás de promessas de símbolos…
É isto que está certo acontecer,
para que seja revelada a verdadeira Humanidade!
A Humanidade que não se contenta com o medo da ação devido ao julgamento,
seja este divino ou puramente social…
A Humanidade que não se conforta com propósito ou razão,
e que, portanto, não se inibe nem se esconde de nada!

Esta será a real Humanidade!
Esta será uma verdadeira existência!
Que venha, então, uma Idade negra,
perante um novo regime de dançarinos e palhaços, 
que confrontam a escuridão!

Venha uma Era sem propósito,
em que apenas têm razão os que sabem que não há razão!

sábado, 15 de setembro de 2018

"Fuga"


‘Foge!’
Falo assim comigo, num grito agonizante que não cessa.
Assim me ordeno e vou fazendo isso: evadindo aquilo que não quero enfrentar, numa perpétua distração da vida.
Como me persegue tudo o que é horrendo, continuo a correr, sempre meros passos à sua frente.
Sinto, por vezes, o toque macabro de algo mais, que pode estar a correr mais rápido que tudo o resto.
Porém, passo a vida a correr, cavalgando apenas na minha ansiedade, cavalo sem nome ou razão de existir.  

Desmontar, agora?
Parar a correria parece apenas uma forma de deixar com que me apanhem vida e morte.
Fazer frente a este violento bombardeamento de mim é despropositado e mortal…
Nada faria senão ceder perante o fogo! E que se daria dentro deste fogo? O meu fim mortal, por tudo o que sou?
Não saio das costas deste cavalo gritante e frenético porque ao seu frenesim me habituei, simplesmente.
É familiar, a este ponto, não fazer nada para tentar defender-me, pensando que me afundaria mais se o fizesse.

Pondero o confronto das ondas…
O pensamento de tais águas traz-me o pânico do afogamento, vindo então a sufocar-me…
Fico, então, à superfície da água, flutuando por uma realidade que me é estranha pela falta de investimento que nela tenho.
As coisas deixam de fazer sentido, porque não posso permitir que o façam…
Significaria deixar de fingir, tirar a máscara, sair do cavalo e levar com tudo aquilo de que fujo há meses…
Orgulho-me de nada, mas menos sofro pela ideia repetida de falta de confronto que arrasto pelo chão ao longo destas palavras….

Merda!
Esta amostra de poema não faz nada para arte, apenas anda às voltas nos meus pensamentos, pondo em palavras o que me perturba!
Este velho cavalo, num pânico constante, tem apenas energia restante para fugir...
Usando palavras mal arranjadas, descrevo um animal inexistente, que me carrega, com membros cansados…
As linhas escritas esta noite fazem tanto sentido como a própria vida: algo enfeitado com pouca beleza que não é nada mais que vazio quando melhor examinado…
Contudo, continuo a escrever, sem saber a razão pela qual o faço, frases que me atacam lentamente.

Morrerá o cavalo, eventualmente…
Não há otimismo em prever o que se dará quando for destruído pelo que me assombra, mas poderá haver para o que vem depois.
Que se chame a isto uma ilusão poética ou apenas vaga estupidez, mas há esperança em mim de que o cavalo possa descansar.
Quero apenas permitir que o animal repouse e renascer com a força de quem se enfrentou, voltando do desastre.
Será possível?
Deixem-me acreditar que sim, esperando a morte do cavalo…

(Uma mentalidade aleatória, resultante num poema de merda)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

"Inferno"

É o Sol quem me ilumina como anjo caído,
puxando-me
por tudo aquilo que já foi perdido…
Mostrando-me
quem pensava eu ter morrido.
Apenas pelas suas palavras vou vendo
quem acabaram estes humanos sendo…

Vou sendo guiado por um poeta,
neste inferno
depois das praias do meu ser…
Ah, como é fanático, o profeta,
filósofo eterno!
Veio inspirar-me a escrever!

No calor de todo o meu tédio, vou descendo até aos confins do significado, acompanhado por quem tem, melhor que eu, qualquer dom de palavras e iluminado pela Estrela da Manhã, sem a qual nada vejo…

Que encontro na profundidade que não sejam artifícios de espetáculo, rodeando a miséria numa boémia meio vazia, que tão bem reverenciada por quem me guia que este, que sofre tédio também, encontra nela cura?

Questiono-me, mas vejo apenas isso, mesmo tendo uma já morta esperança de que mais se consiga encontrar: uma linha de importância entre tanta irritação e fútil festa, que dê significado a esta feitiçaria tão bela e moribunda!

segunda-feira, 30 de julho de 2018

O Não-Fim

Sou uma anarquia cansada,
um revólver mal carregado e deixado em casa
de um velho pistoleiro reformado,
que ainda espera os seus tempos de glória…
Não fiz nada senão trabalhar um campo,
enquanto via a vida passar
e os velhos tempos desvanecer…
Ah, que ergueram cidades e florestas de betão,
onde tinha eu as minhas memórias de árvores felizes!
Ainda tenho eu as emoções antigas,
das matanças das guerras e das mudanças…
Como me eram calmantes aquelas visões dos campos que agora não o são…

Sou uma revolução das grandes,
daquelas que se sonham e nunca se fazem,
e que, quando se fazem, conseguem ser tudo menos o que se espera,
como uma pobre antecipação do povo…
Não dei em nada senão em mais revolta,
a plebe continua furiosa!
Levantam-se bandeiras
e marcham em linha, ao ritmo de si mesmos,
todos aqueles que ainda me têm no espírito,
por não estarem satisfeitos com o meu resultado!
Nada acabou ainda!