terça-feira, 9 de abril de 2019

Lamentações de mau proveito

Morri, para um mundo dececionado,
fui Beleforonte forte, promissor
montado num rápido cavalo alado,
levado pela crença vaga no amor.

Cri, amei e tentei vingar a minha
família de loucos grandiosos,
mas nunca fui por onde caminha
 a família dos que ficam poderosos!

Ah, glória! Sou um mártir da loucura!
Ruína condenada ao falhanço
de uma obra sem qualquer formosura!
Assim, lento, para o fim avanço,
nesta calma vida, plena tortura!

Oh, como sabem os deuses que me canso!
Sou fraco e parvo, nunca fui
mais que cabeça de gado manso,
que da vida não se aproveita ou usufrui...

Equestre criatura de asas partidas,
fui um bípede depenado sem voar.
Oh, sem quaisquer mágoas vividas,
que rápido se foi o tempo me esgotar!

Em suma, no fim, nunca fui nada,
nem cheguei a voar perto do Sol...
Oh, sem ter tornado divina a vida alada,
fico agora, morto e irado caracol!

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