segunda-feira, 30 de julho de 2018

O Não-Fim

Sou uma anarquia cansada,
um revólver mal carregado e deixado em casa
de um velho pistoleiro reformado,
que ainda espera os seus tempos de glória…
Não fiz nada senão trabalhar um campo,
enquanto via a vida passar
e os velhos tempos desvanecer…
Ah, que ergueram cidades e florestas de betão,
onde tinha eu as minhas memórias de árvores felizes!
Ainda tenho eu as emoções antigas,
das matanças das guerras e das mudanças…
Como me eram calmantes aquelas visões dos campos que agora não o são…

Sou uma revolução das grandes,
daquelas que se sonham e nunca se fazem,
e que, quando se fazem, conseguem ser tudo menos o que se espera,
como uma pobre antecipação do povo…
Não dei em nada senão em mais revolta,
a plebe continua furiosa!
Levantam-se bandeiras
e marcham em linha, ao ritmo de si mesmos,
todos aqueles que ainda me têm no espírito,
por não estarem satisfeitos com o meu resultado!
Nada acabou ainda!

“All That Once Shined”


Brilha agora mais uma vez tudo aquilo que outrora se banhou ao sol de uma glória que pensava estar extinta completamente: os meus dias vida num verão que pensava nunca mais chegar. É com alguma velocidade de viver que nos fazemos todos ao êxtase e à boémia que se pode obter numa pequena cidade à costa, no Sul de um país assim… E que voltem os momentos do passado que agora relembro com saudade de quem está morto, tendo uma vez sentido vida própria e propósito.
Foram esses tempos distantes os meus dias de propósito e de alguma felicidade, em que nada precisava de fazer sentido porque tudo tinha uma razão de ser, ou assim o pensávamos. Mesmo sentindo-me incapacitado para escrever a horas altas, avanço com as letras e com um dom mal treinado, descrevendo a minha lembrança de tempos que agora me fazem querer chorar de nostalgia e poder convencer qualquer divindade ou universo distante e frio – digo isto pela minha certeza da sua frieza inerente – a deixar-me voltar a tais ocasiões…
Porém, não me deixam! Sou forçado por tudo aquilo que é lógico e natural a ficar sujeito à movimentação do tempo e a aceitar que vida continua, abandonando-se os bons velhos tempos como se abandona um ente querido morto, que fica simplesmente vivo na memória… Na minha memória, então, ficam estas vivências da estupidez do passado, quando éramos um bando inocente de solitários fúteis sem razão de ser ou noção que assim o éramos e é aqui, apenas, que fica esta minha antiga vida! Ah, que tudo o que brilhava anteriormente simplesmente morreu, desaparecido nas areias do tempo que me pesam como tudo na consciência!
Mesmo sabendo isto, não vejo outro remédio senão tentar recriar estes tempos únicos e gloriosos, na esperança de restituir toda a minha antiga felicidade. Assim se fez nas noites anteriores a esta, correndo de ponta a outra deste poço de história à velocidade dos tempos antigos para que se pudesse reacender em mim a sua chama…. Diria que é uma demanda nobre, aquela de querer viver outra vez, buscando a vida eterna da alma jovem que quer descobrir e viver constantemente o que é novo e, por dizer que é nobre, assim o tentei fazer, com algum sucesso. Que novas almas e memórias, entre perguntas parvas e cones de trânsito puxados até casa por filósofos, vim a encontrar com esta vida!
Saio desta tentativa de glória com satisfação e náusea, mas esta segunda acompanha-me sempre.