sábado, 3 de março de 2018

Na forma e na doença

Os gritos da melancolia de anteriores mortos,
com uma angústia miserável,
As ânsias da vida dos que partiram,
com uma terrível raiva a tudo,
As tristezas de todos os nervosos homens...
Faz isto abanar o meu ser em mais nada que nada...
Faz isto em mim espasmo,
de batimentos cardíacos e preocupações vazias.
Ah, fazem uma vida cheia
da riqueza de estar a ser atacado pela fútil neurose insatisfeita!

Um corpo que morre,
num espírito que é executado por tudo,
sem qualquer boa razão para tal execução...
Calculada, experimentada e humana!
Médica, metódica e miraculosa!
Uma fantasia da cura de tudo e mais alguma coisa,
esta execução de corpo e mente sem razão!

A indecisão assenta...
Sob efeitos do universo humano escrevem-se versos,
inspirados em artificiais estrelas,
que naturais apenas têm o facto de serem humanas...
Doente, sob a égide do cosmos,
desdobrando a frieza da vida e do Infinito,
sonhando as viagens da aventura e da descoberta em tempos difíceis,
não se faz mais nada...
Escreve-se!

Na imensidão do universo,
criado na imaginação dos homens pensadores,
criado em honra dos seus grandes titãs,
vê-se um lugar sonhado para a criação...
Arranjando e dispondo mundos e imagens,
desvanecendo-se o sentido de novo,
mantém-se o mesmo no mundo apenas com a forma de dispor mundos...
O original individualista
e o romântico convencido,
afogados no seu ego artístico de divindades da simples Humanidade...
Juntam-se à neurose e aos gritos do passado,
escrevendo, doentes em mim,
numa noite de fins de frio infernal...

A confusão mental não para,
como o tempo, a poesia, a vida e morte...
Na sua fúria assaltam-me os sentidos sem remorsos.
Na minha existência, ataca-me tudo,
tudo...
Tudo menos qualquer parecença de sentido!
Encaro as últimas palavras deste monstro sem motivo,
e sobrevivo a mais um poema...