quinta-feira, 27 de setembro de 2018

"Rossio"


Planos de um pôr do sol de avenida,
inundados de melancolia de saudade futura,
que vão sendo embrulhados numa suave voz…

Estátua de um enorme passado, nesta mesma praça,
que se faz passar bem com a nostalgia,
toda ela é feita de sentir falta de qualquer coisa…

Reunião intersetada de presente e futuro,
cruzando-se alma e seus redores, passado e presente,
no que são momentos significantes de reinos distantes.

Uma fonte que se depara consigo no meio da praça,
fitando prazer momentâneo e glória anterior,
fica estagnada, simplesmente, no momento presente…

Para-se-me a fonte, com as correntes que se partem da história
e abre-se-me a praça como um universo melancólico,
em que reina entre as estátuas a saudade,
mas que me apresenta também a glória dessas mesmas estátuas!

O tamanho de tudo é tonto, ansioso e apavorado,
mas estátuas e monumentos erguidos pelo êxtase da glória
abrem e guiam o caminho para o abismo,
em busca da fé para vencer a vida!

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

"Mundo aos Lunáticos"


A meu ver,
que dancem os lunáticos,
nus nas ruas,
gritando a morte dos seus líderes!

Porém,
que apenas o façam
caso
forem verdadeiramente lunáticos,
sendo
que apenas são lunáticos aqueles verdadeiros humanos.

Que se acordem os doidos das sepulturas,
para correr as avenidas com excentricidade!
Que se cantem eulogias aos antigos mortos,
para que nos façam a nós mesmos modernos!
Que sejam, então, os lunáticos a fazê-lo,
para que estes possam trazer mudança e revolução!

No meu olhar,
pouco é melhor que ressurreição
desta antiga tradição,
apenas para que a matem os lunáticos que dançam,
trazendo depois melhor!

O mundo pertence aos excêntricos,
dos que dançam o desprezo à vida aos que o matam essa mesma dança!
O mundo pertence aos lunáticos,
dos que reclamam a morte aos líderes aos que combatem o inferior apenas por ser inferior!
O mundo pertence aos malucos,
dos que se riem do absurdo aos que nada fazem que não causar o absurdo!

Se à futilidade pertence a existência,
porque não pertence já a existência àqueles que melhor usam a futilidade?
Que assim seja!
Que assim se faça!
Ceda-se o mundo aos lunáticos,
aos excêntricos,
aos malucos!
Deixe-se que governem tudo, para que possam ser as civilizações puramente verdadeiras…
Sim! Puramente humanas, serão agora as pessoas,
lideradas por quem se apercebe da realidade de ser.

Ah, que se dance nas ruas ao sabor desta gente!
Lancem-se desfiles e paradas pelas cidades!
Celebre-se a futilidade e celebrem-se aqueles que a conhecem,
com fogos, motins, paradas e explosões!
Faça-se um ruído extremo,
faça-se um barulho de revolução!
Ah, que se acorde Deus desde as ruas cosmopolitas,
para que Ele se lembre que é inútil!
Para que Ele morra de vez!

Morra Deus!
Perante a berraria humana,
governada pelos lunáticos,
que morra qualquer conceito de divindade!
Que morra qualquer ideia do sagrado,
que pereça a necessidade de acreditar em falsos paraísos!

A era dos que não se escondem por trás de promessas de símbolos…
É isto que está certo acontecer,
para que seja revelada a verdadeira Humanidade!
A Humanidade que não se contenta com o medo da ação devido ao julgamento,
seja este divino ou puramente social…
A Humanidade que não se conforta com propósito ou razão,
e que, portanto, não se inibe nem se esconde de nada!

Esta será a real Humanidade!
Esta será uma verdadeira existência!
Que venha, então, uma Idade negra,
perante um novo regime de dançarinos e palhaços, 
que confrontam a escuridão!

Venha uma Era sem propósito,
em que apenas têm razão os que sabem que não há razão!

sábado, 15 de setembro de 2018

"Fuga"


‘Foge!’
Falo assim comigo, num grito agonizante que não cessa.
Assim me ordeno e vou fazendo isso: evadindo aquilo que não quero enfrentar, numa perpétua distração da vida.
Como me persegue tudo o que é horrendo, continuo a correr, sempre meros passos à sua frente.
Sinto, por vezes, o toque macabro de algo mais, que pode estar a correr mais rápido que tudo o resto.
Porém, passo a vida a correr, cavalgando apenas na minha ansiedade, cavalo sem nome ou razão de existir.  

Desmontar, agora?
Parar a correria parece apenas uma forma de deixar com que me apanhem vida e morte.
Fazer frente a este violento bombardeamento de mim é despropositado e mortal…
Nada faria senão ceder perante o fogo! E que se daria dentro deste fogo? O meu fim mortal, por tudo o que sou?
Não saio das costas deste cavalo gritante e frenético porque ao seu frenesim me habituei, simplesmente.
É familiar, a este ponto, não fazer nada para tentar defender-me, pensando que me afundaria mais se o fizesse.

Pondero o confronto das ondas…
O pensamento de tais águas traz-me o pânico do afogamento, vindo então a sufocar-me…
Fico, então, à superfície da água, flutuando por uma realidade que me é estranha pela falta de investimento que nela tenho.
As coisas deixam de fazer sentido, porque não posso permitir que o façam…
Significaria deixar de fingir, tirar a máscara, sair do cavalo e levar com tudo aquilo de que fujo há meses…
Orgulho-me de nada, mas menos sofro pela ideia repetida de falta de confronto que arrasto pelo chão ao longo destas palavras….

Merda!
Esta amostra de poema não faz nada para arte, apenas anda às voltas nos meus pensamentos, pondo em palavras o que me perturba!
Este velho cavalo, num pânico constante, tem apenas energia restante para fugir...
Usando palavras mal arranjadas, descrevo um animal inexistente, que me carrega, com membros cansados…
As linhas escritas esta noite fazem tanto sentido como a própria vida: algo enfeitado com pouca beleza que não é nada mais que vazio quando melhor examinado…
Contudo, continuo a escrever, sem saber a razão pela qual o faço, frases que me atacam lentamente.

Morrerá o cavalo, eventualmente…
Não há otimismo em prever o que se dará quando for destruído pelo que me assombra, mas poderá haver para o que vem depois.
Que se chame a isto uma ilusão poética ou apenas vaga estupidez, mas há esperança em mim de que o cavalo possa descansar.
Quero apenas permitir que o animal repouse e renascer com a força de quem se enfrentou, voltando do desastre.
Será possível?
Deixem-me acreditar que sim, esperando a morte do cavalo…

(Uma mentalidade aleatória, resultante num poema de merda)