quarta-feira, 18 de abril de 2018

Elevação ao divino


Procura elevar-te,
ser mais do que tu és,
em mais maneiras do que és…
Procura que em ti nasça um desejo,
desejo antigo de mais,
que antes era atingido por menos que tu tens.
Ah, mas que agora que nasceste é diferente!
Agora queres mais que eles dantes,
porque te achas mais e melhor que eles
e por isso não tens o desejo!
Mas procura,
porque vale a pena procurar a elevação…

Já te nasceu o desejo à divindade,
dá para ver pelos teus olhos.
Estás diferente, mais astuto e determinado.
Estás modificado, a tudo estás aderente,
pelo que se nota que o desejo nasce.
Que belo nascimento!
O nascimento de um desejo de elevação,
de ser mais que tu,
de ser mais que mais que tu,
de ser divindade,
de até ser mais que um deus!

Que se desafiem as religiões do mundo,
porque queres tu o poder,
queres tu agora ser o deus dos homens,
venerado na tua insatisfação por não seres nada!
Como és parvo por te veres assim,
e como são parvos os outros por não acharem de ti isso.
Ah, que nasceu!
Ah, que está cá o desejo de ser maior que tu…
Tornaste-te uma génese daquilo que queres ser,
uma génese que não passa disso,
ser que nunca se realizará…

Mas perde-te…
Vá, perde-te,
naquela futilidade do desejo de megalomania,
naquela vaidade da sede de poder,
naquela inutilidade do humano!
Perde-te no desejo de melhorar e eleva-te,
porque só assim é que melhoras,
porque só assim é que vives!
Tu que quebras o impossível e atinges o divino,
numa superfície mental que é só tua,
numa visão social e irrealista que não é de mais ninguém…
É só tua,
toda tua,
esta vontade de seres tu e mais que tu!

Sê assim,
completo e divino,
divino e completo,
completamente divino
e divinamente completo!
Sê como és,
uma sé da fé qualquer que tens de ti,
o seu único praticante!
Sê só,
sozinho em câmaras de ti,
porque as câmaras que criaste despropositam os outros…
Pois despropositam, não é?
Os outros,
que inúteis que são,
mas não são inúteis para poder dizer-se que és um deus!

Elevas-te besta, em solto verso,
porque mereces,
és humano e mereces ser uma besta do submundo,
um monstro divino de ti mesmo,
forjado da parte forte e feia da sua vontade,
também ele feio, forte e cheio de vontade!
Elevas-te acima de tudo,
porque assim te achas,
superior aos anjos,
igual a deuses,
ou superior a eles, tal é superioridade ti!

Elevas-te, agora que te vejo,
e é admirável que te eleves…

Tornas-te o sonho dos homens,
abandonando os homens,
descartando quem és,
trocando identidade pelo poder de seres mais que tu!
Era isso que queiras, não era?
Já não és humano!
Já não és nada,
senão a besta de um deus,
um deus que é uma besta, porque é uma besta que se elevou a deus!
És tu, isso,
repara bem, meu monstro divino,
armado da sabedoria eterna,
mas que não consegue ser belo ou bom!

Ah, mas agora satisfizeste-te!
Cumpriste o desejo de seres mais,
chegaste à realização de ser divino!
E agora? Onde está o teu desejo,
para que lutas com a natureza,
para que guerreias com a vida,
se ganhaste todas as lutas com o natural
e conquistaste a morte com o poder?
Ah, descobriste o que é divino e gostaste,
aliás, até gozaste demasiado do que encontraste,
mas eis que morres,
estagnado no aborrecimento!
Eis que cais para o tédio!
Eis que amaldiçoas o poder,
porque agora é tudo fácil,
agora nada há que fazer e tudo já foi feito antes,
mesmo quando é tudo original!

Cais em ti mesmo e percebes que a divindade não é desejável.
Queres voltar atrás, por isso abdicas de tudo para viver outra vez sem desejo…
Doce eterno retorno…

terça-feira, 10 de abril de 2018

Universo


Nas quatro paredes que contêm um universo,
sinto uma extensão do meu universo,
sem sentir a maior grandeza de um colossal cosmos,
ou pensar numa monstruosidade espacial exterior…
Não consigo pensar nisto!
Não posso encarar a escala de tudo!
Pensar na minha própria inexistência cósmica
é impossível da pequenez do meu mundo privado…

Tudo o que existe
são as minhas ideias de tudo aquilo que existe…
Tudo o que vive no universo
vive dentro da construção do meu próprio pensamento!
Preso fora da realização de tudo o resto,
a minha mente consegue criar tudo dentro desta cela,
destas paredes que apresentam como novos astros!
O egoísmo mental de se pensar nisto…
A megalomania de pensar assim…

A imaginação limita o cosmos,
reduzindo a realidade para a falta de propósito,
que se vive diariamente sem o mundo exterior…
Sem o mundo exterior,
criando tudo com a mente…
A poderosa mente egoísta que se acha divina!
A convencida estupidez de um novo nascimento cósmico,
que é um milagre existencial de um solitário poeta!

Grito, poeta cósmico do pessimismo,
preso na cela mental,
de quatro paredes que me fecham na significância,
ilusória,
de criar universos despropositados!
Grito pela criação de novas realidades gigantes,
novas estrelas e astros encerrados numa realidade mais pequena,
sem a realização de mim,
do quão pequeno é este novo universo!
Grito por tudo o que existe aqui,
e apenas por aquilo que existe aqui,
encerrado neste espaço pequeno,
pela simples razão que mais nada existe!
Pelo estúpido motivo que não há mais que o que me fecha neste espaço!

Derroto-me no terror desta subjetividade,
que me faz esquecer,
mais uma vez, a escala…
Fico imóvel, em meditação desta ordem astronómica,
e visualizo uma dança anárquica,
que tem tanta insignificância como beleza…
Manifesta-se tudo na vida, e grito por uma maior criação!