terça-feira, 23 de outubro de 2018

Ossos e Espírito

Os ossos dos calmos não são vistosos,
apenas recordações, perdidas no momento...
Não conseguiram estes imbecis ser gloriosos,
no seu viver estagnado e lento...
Mas foram bons, leves e amistosos,
presos em estar parados no tormento
de não ter dias de sangue e violência...
Ficaram vivendo, na serena paciência!

São admiráveis os espíritos inquietos,
aqueles que não se contentam com o nada...
Estes têm ao perigo, à morte e à vida afetos,
pela sua viagem dorida e honrada...
Poderão, eventualmente, não estar corretos,
os que querem uma vivência martirizada?
Como? É uma divina maneira de viver,
a destes que conseguem apenas tentar morrer!

Físicos e efémeros os que são
capazes de viver sem tentar mudar o mundo.
Existem, mas verdadeiramente não
vivem para conseguirem algo que seja profundo!

Eternos e modernos o que ficam,
torturando a sua mesma cultura.
Gritam e, verdadeiramente, crucificam,
qualquer passado de amor ou de ternura!

Os que param a sua vida,
acabam por perder uma alma sofrida...

Os que se sagram dominadores dos seus destinos,
hão de sagrar-se, com certeza, mais que divinos!

Há que deixar de viver na futilidade...

Ah, o atingir a espiritual imortalidade!

(A.O.)

Masoquismo

É tempo de deixar
que seja o mundo dominado pelas gentes
que nada mais querem que pensar...
Que se partam nas alamedas os nossos dentes!

É nada mais que uma rutura
de uma imensa intensidade
aquilo que proponho na cultura...
Que se tragam agora dor e vivacidade!

É uma vaga pútrida mania,
esta masoquista e brutal existência,
que quero que me esmurre com as pedras da agonia...
Que se revele na dor a nossa essência!

É este o lugar para que se faça
uma dolorosa mudança por meio de mutilações,
que atraem a alma como a luz atrai a traça...
Que se encham as ruas de exibições!

Chamo o presente turbulento!
Evoco mais nada que a minha ira!
Gritando, abandonei a lira,
assumindo um futuro bruto e sangrento!
Mas que sentido faz, não ser assim,
derrotado e espancado pelas ruas?
Neste inerente masoquismo que há em mim,
correm-me pela alma sensações nuas!

(A.O.)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Quero lamber a vida...

Quero lamber a vida!
Um qualquer viver de divindade,
vivendo na insana futilidade
de ter a alma invertida,
daquilo que se diz normalidade,
por mais que não seja esta vivida!

Não quero uma alma parada,
num pequeno e parvo espaço.
Prefiro ter a vida acabada
e que seja brutalmente escasso
o que me faz puramente viver...
Ah, que quero agora morrer
se não puder ser mais que um fracasso!
Não se dará minha vida por derrotada.

Espero não vir a perder
a vontade, gritando assim, de fúria

Isto é um rimado escrever,
onde se vai cantando o mundo.
Vai-se gritando a minha lamúria
para ser algo mais profundo
Do que aquilo que pareço ser!
Ah, que quero ficar para a História!

Não procuro nada mais que a glória
com a qual não pude crescer...

(A.O.)

terça-feira, 9 de outubro de 2018

"Procurando a sensação absoluta"

I
Olho para os meus óculos e suspiro,
mas não há poesia que acalme a minha ânsia!

Tomo as letras como sentimento,
procuro criar essa poesia,
usar palavras para sentir tudo,
porque não o sensacionismo?

II
Desfaço-me em poemas,
devo fazer ódio e alegria nos versos,
mas primeiro...
Primeiro...
Primeiro incita-se a violência...

Para que me desfaça,
terá de haver violência,
maior que aquela entendida num suspiro
mirando um par de óculos...
Violência a sério,
violência à bruta e verdadeira!

III
Corro pelas pedras das ruas
e salto pelo alcatrão das estradas
que acompanham as grandes avenidas.
Nada disto é verdade,
mas é sentido como real.

Tropeço com a rapidez do meu passo,
vindo a rebolar
pelo chão que me vem a rasgar,
esfolar, ferir, mutilar,
até que possa morrer-me totalmente a alma.
Há ódio próprio em tanta chacina,
sendo que me odeio à medida que sou desfeito.

IV
Ali fico,
massacrado como a inocência de uma virgem
que descobre a liberdade de ser cruel...
Ali deitado,
entre carros que me atropelam
e as pessoas que nem me olham,
exaustas do que é moderno...

Totalmente desfeito de mim,
poderei fazer do que sou qualquer um,
provando-se a dor de morrer uma dádiva
de um sensacionismo hiperbólico.

Down My Face Tears Fell

Down my face tears fell
Endlessly like they were under a spell
They created a pool at my feet
Just as quick as my heartbeat

I told myself it was only a dream
That it wasn't what it seemed
Because my eyes were blurry
With the tears' hurry

I shouted some ugly words
That probably hit him like swords
I simply couldn't hold on anymore
I was truly too damn sore

But those words came back to me
Hit me like bullets I couldn't see
Numbed me like the effect of an opium flower
The taste of my tongue plainly sour

In the mirror I looked at myself in the eyes
Watched the tears fall like drops from the skies
I hoped that my bullets or swords
Weren't deadly words 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

"Eternidade"

Se a eternidade nos falhar, 
teremos esta vida e o passado, 
um passado de armas e sangue, 
de conflitos e estrondos
e um presente que é agora apenas, 
sendo passado em meros instantes, 
pela velocidade do tempo. 

A eternidade cai, 
falha, nas garras da humanidade, 
morrendo a mentalidade, 
condenados os grandes ficam à lembrança, 
ao seu trabalho e à sua herança. 
Se a eternidade falhar continuamente, 
haverá espírito algum que suceda?

O pensamento do ser humano
em moralidade e mente coletiva
é mutável e breve, 
como um fôlego de vapor numa manhã fria... 
Somos efémeros, nós humanos. 
Somos instantes, nós espíritos.

sábado, 6 de outubro de 2018

"Poemas finais"

I
A besta alcoolizada rasteja no chão
e penso se acabarei este caderno.
Quanto faltará
até que se encerre o estilo
e se possam demolir as catedrais erguidas
nesta amostra de papel,
produto da intervenção da força humana
na delicada natureza?


Isto não estão a ser estrofes,
nem tão pouco é prosa,
apenas palavras.


A humanidade penetra-me o quarto,
no mais puro dos homens,
aquele que é bruto e irreverente, 
filosófico e estúpido, 
anacrónico e antagónico, 
fora do seu tempo, bem conhece o homem dos bigodes...

Fala da noção da vida
e questiona o que será!

II
O quarto está uma confusão?
O mundo está uma confusão!
Um caos lindo e bruto,
de nada mais que o natural humano.


Merda,
que o espírito é uma confusão,
uma falta de propósito que se conta
nos mais altos padrões de sociedade,
porque é lindo,
porque é vápido e fantástico,
ser-se niilista em tudo!

Armadas destes vermes
patrulham os mares da ignorância,
com esperança de morrer
e andar de quem sabe mais,
por serem mais miseráveis que outros!

Ah, que me agonizam estes!
Pseudo-intelectuais da fúria de viver,
que fazem nada mais que nada,
porque o seu ponto é morrer... 

Exércitos destes ratos desesperados,
invadiram as ruas há muito,
tomaram as avenidas,
infetaram as cidades!

Sem saber vencer-se a si mesmos,
negar a sua filosofia e avançar,
ficam a condenar o lugar onde vivem!

Marcham eternamente
para a sua própria destruição... 

Caminham lentamente para que morramos
todos. 

III
Apunhalados escravos de outros,
que vos deixaram por serem mais que vós,
revoltem-se!

Abandonem o vosso passado,
na tradição não há pensamento
que justifique inferioridade!
Levem acima o acaso e o caos da
fúria de uma boa guerra,
façam tremer as bases e fundações!

E que se mandem abaixo essas bases,
lutem por algo novo,
algo mais que o nada
em que se baseiam...
Encontrem-se na agonia!
Fundam-se no caos, furiosos escravizados,
oprimidos pelo universo,
pela vida e por tudo!

Nada aceitem,
e rejeitem viver por nada,
não se juntando aos que vos oprimem
da vossa própria vontade
de algo melhor.
Partam as correntes do niilismo e da velhice!
Que algo novo brilhe num horizonte livre!