sábado, 6 de outubro de 2018

"Poemas finais"

I
A besta alcoolizada rasteja no chão
e penso se acabarei este caderno.
Quanto faltará
até que se encerre o estilo
e se possam demolir as catedrais erguidas
nesta amostra de papel,
produto da intervenção da força humana
na delicada natureza?


Isto não estão a ser estrofes,
nem tão pouco é prosa,
apenas palavras.


A humanidade penetra-me o quarto,
no mais puro dos homens,
aquele que é bruto e irreverente, 
filosófico e estúpido, 
anacrónico e antagónico, 
fora do seu tempo, bem conhece o homem dos bigodes...

Fala da noção da vida
e questiona o que será!

II
O quarto está uma confusão?
O mundo está uma confusão!
Um caos lindo e bruto,
de nada mais que o natural humano.


Merda,
que o espírito é uma confusão,
uma falta de propósito que se conta
nos mais altos padrões de sociedade,
porque é lindo,
porque é vápido e fantástico,
ser-se niilista em tudo!

Armadas destes vermes
patrulham os mares da ignorância,
com esperança de morrer
e andar de quem sabe mais,
por serem mais miseráveis que outros!

Ah, que me agonizam estes!
Pseudo-intelectuais da fúria de viver,
que fazem nada mais que nada,
porque o seu ponto é morrer... 

Exércitos destes ratos desesperados,
invadiram as ruas há muito,
tomaram as avenidas,
infetaram as cidades!

Sem saber vencer-se a si mesmos,
negar a sua filosofia e avançar,
ficam a condenar o lugar onde vivem!

Marcham eternamente
para a sua própria destruição... 

Caminham lentamente para que morramos
todos. 

III
Apunhalados escravos de outros,
que vos deixaram por serem mais que vós,
revoltem-se!

Abandonem o vosso passado,
na tradição não há pensamento
que justifique inferioridade!
Levem acima o acaso e o caos da
fúria de uma boa guerra,
façam tremer as bases e fundações!

E que se mandem abaixo essas bases,
lutem por algo novo,
algo mais que o nada
em que se baseiam...
Encontrem-se na agonia!
Fundam-se no caos, furiosos escravizados,
oprimidos pelo universo,
pela vida e por tudo!

Nada aceitem,
e rejeitem viver por nada,
não se juntando aos que vos oprimem
da vossa própria vontade
de algo melhor.
Partam as correntes do niilismo e da velhice!
Que algo novo brilhe num horizonte livre!

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