I - Caixa
Numa caixa,
Fechado, simplesmente existindo…
Vejo-me um ser que nada é,
Mas consegue ser, de uma forma,
Ou de outra forma,
Não interessa, está escuro…
Não me vejo.
Não me vejo, então não existo,
Porque está escuro na caixa,
Porque sou, talvez, apenas esta espaçosa caixa,
Que me sufoca com claustrofobia…
Aqui não sou nada,
Simplesmente nada…
Como digo,
Para mais ninguém que eu mesmo…
Não há mais que o presente,
Não mais existe que a caixa
II - Tempo
Anos passam,
Passam lentamente,
Rodeados e preenchidos de pensamentos,
Instintos e sentimentos.
Tudo aquilo que faz um humano,
Trancado no inferno de uma solitária caixa.
Não sei porque não morro,
Não sei porque não me mataram,
Não sei até porque não me matei a mim, ainda.
É humano, o amor à vida,
É o que suponho,
Nesta mísera vida de caixa.
Cresci, neste tempo,
Incansável, sofro, sem entender o que se passa.
Crueldade da vida que aqui me pôs!
Ódio da criação de quem vive esperando a morte,
Num mundo em que não há nada,
Não, nada!
Nada que não seja aprisionada existência
III – Visão
Visão incrédula do masoquismo,
Abre-se lentamente a caixa!
Estou livre! E para lá corro,
Corro, corro, corro… Para a saída, para o mundo…
Para que acorde e perceba a ilusão,
Em que o sonho da abertura da caixa,
É tão fútil como o da razão para viver assim.
Sofro mais tempo,
Sejam dias, semanas, meses ou anos,
Fico e, assim, sofro nesta caixa,
Sem nunca saber mundo fora da amaldiçoada caixa...
É inútil pensar na saída de algo assim,
Por isso, tenho, perpetuamente, pensamentos e sentimentos.
Ah, qual a razão da minha vida?
Maior miséria eterna de estar.
Estar, existir…. Apenas isso conduz o humano à loucura.
Fico na caixa, esperando esperança.
Esperando esperança e respostas…
Obtenho apenas agonia!
IV – Fim da Vida
É aquilo que se acha um triste dia,
E morrem ossos contra as paredes da jaula,
Fechada e tímida no respeito à vida,
Sagrado inferno,
Em que me banho de desejo de morrer!
Chega da caixa que me limita tudo…
Desisto,
Em credos de existência,
Trago um final ao fim de tudo o que sou.
Contra as paredes!
Contra tudo, e contra o mundo!
Morrerei aqui, com embates violentos no metal,
Fraturando euforicamente o meu ser!
Nem a morte consigo,
Estendido no chão, sem perder os sentidos,
Além do sentido da vida, que perdi há muito,
Essencialmente, assim fico,
Como se morto, como sempre fui…
Desisti, agora fico imóvel…
E oiço o real ranger da porta abrindo.
domingo, 14 de janeiro de 2018
CIDADE - Raquel Ferraz
"É a luz dos letreiros que chamusca os insectos
imprudentes
O cinzento sombrio dos prédios do bairro, a churrasqueira, o costumeiro café e o bar de karaoke
Os rostos amarelados do café e do tabaco, café para despertar, tabaco para adormecer
A luz dos postes que encandeia os fatigados madrugadores e os insistentes semáforos autoritários
O pó conforta os carros e os velhos e sujos autocarros que mal cumprem os horários
Os jovens trabalhadores e as suas mochilas que alpinam.
O timbre resiliente e cansado da ponte que todos os dias sustenta os stresses e afazeres da gente.
É dia dos deveres laborais, académicos, procrastinar. Dia de viver, dia de morrer, viver para mais um dia, nascer para o mundo, viajar em nós ou partir para nunca mais voltar."
O cinzento sombrio dos prédios do bairro, a churrasqueira, o costumeiro café e o bar de karaoke
Os rostos amarelados do café e do tabaco, café para despertar, tabaco para adormecer
A luz dos postes que encandeia os fatigados madrugadores e os insistentes semáforos autoritários
O pó conforta os carros e os velhos e sujos autocarros que mal cumprem os horários
Os jovens trabalhadores e as suas mochilas que alpinam.
O timbre resiliente e cansado da ponte que todos os dias sustenta os stresses e afazeres da gente.
É dia dos deveres laborais, académicos, procrastinar. Dia de viver, dia de morrer, viver para mais um dia, nascer para o mundo, viajar em nós ou partir para nunca mais voltar."
Raquel Ferraz (Maio de 2017)
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