terça-feira, 9 de abril de 2019

Lamentações de mau proveito

Morri, para um mundo dececionado,
fui Beleforonte forte, promissor
montado num rápido cavalo alado,
levado pela crença vaga no amor.

Cri, amei e tentei vingar a minha
família de loucos grandiosos,
mas nunca fui por onde caminha
 a família dos que ficam poderosos!

Ah, glória! Sou um mártir da loucura!
Ruína condenada ao falhanço
de uma obra sem qualquer formosura!
Assim, lento, para o fim avanço,
nesta calma vida, plena tortura!

Oh, como sabem os deuses que me canso!
Sou fraco e parvo, nunca fui
mais que cabeça de gado manso,
que da vida não se aproveita ou usufrui...

Equestre criatura de asas partidas,
fui um bípede depenado sem voar.
Oh, sem quaisquer mágoas vividas,
que rápido se foi o tempo me esgotar!

Em suma, no fim, nunca fui nada,
nem cheguei a voar perto do Sol...
Oh, sem ter tornado divina a vida alada,
fico agora, morto e irado caracol!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

"Morte e Insatisfação"


I

Absorto,
calmo e episódico.
É um viver demente
e aborrecido
com a saudade
do que foi já vivido,
de viver diariamente…
É o desejo irreal
pelo que não é natural,
por aquilo que é
espasmódico:
o que não deixa tranquilo,
mas põe-me outra vez de pé,
pois estou morto…

II 

Espírito morre!
Pinta-se o mundo de cinzento,
por plena falta de talento
o poeta corre!
Galopa, fugindo
de todo o seu tormento.

Está farto!
Não quer viver fingindo,
das paredes de seu quarto
- agora de cor cinzenta,
pelo que o espírito aguenta -,
que passa a vida apenas rindo.

Escreve!
Cria-se e desfaz-se,
porque assim se atreve,
este fanático de viver.
Há de assim morrer,
mas satisfaz-se?

Não!
Porque sua alma
não está leve.
Uma confusão pesada,
pela mágoa arrastada…
Ah, o desejo pela calma
numa jovem vida breve!

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

"Lamentações de Uma Flecha"

Corri, 
fui simples e absoluta flecha
com sonhos absurdos
de chegar a qualquer coisa, 
sem reconhecer que existe a realidade de cair. 
Estava condenado à queda, 
num voo que nunca foi voo, 
porque nunca tive asas.

Tentei voar
sem assistência de penas
bem feitas das palavras alheias,
mas nada consegui...
Falhei, afogado na mediocridade
de mais alguém que se acha superior
por saber escrever por mero acaso...

Os meus sonhos de glórias grandes por outros exprimidos!
Oh, como nunca foram nada
estas demonstrações de fraqueza,
que se sagram agora simples sinais de negação....
O negar do peso inexistente do meu génio!
Ele nunca existiu, porque sou uma farsa,
uma vaga imitação de um poeta puro... 

Finjo-me filosófico, culto e eloquente,
mas continuo sem me convencer de nada disso...
Nunca serei nada disso,
se tento apenas sê-lo ao lamentar-me que não sou nada!
Arremessado pelo mundo à vida,
simplesmente escrevi com grandes sonhos e ilusões... 

Deixem-me descansar, dar às asas queimadas
um fim devido, cair com a ponta da flecha no chão,
para que possa finalmente morrer... 
Nunca fui artista que se prezasse.
Puro? Apenas uma vaga imitação.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Numa dita alameda

Numa dita alameda de pequena cidade, um cafezinho é mergulhado em chamas, enquanto olho atentamente para uma fotografia que procuro esquecer. Mais nada faço, apenas fitar a fotografia e desejar que o estabelecimento pudesse mais depressa arder da minha memória que do papel que o representa – uma antiquada demonstração do futurismo, esta fotografia.
Ossos de província queimam e com eles o resto das recordações que antes fiz em tão pútrido e seco lugar. São os corpos efémeros dos que não duram que vão sendo engolidos pelas chamas de isqueiro que me emprestou um sujeito misterioso, que me disse que queimasse o passado – bom homem, pareço concordar com ele, mesmo dizendo ele que não tem a disponibilidade para falar – e não é com pena que queimam, é com esperança num futuro próximo, porque é apenas isso que poderei querer agora ter.
Que expluda também o café real, não só este figurado! Aprendam eles a ser melhor que o meu passado simples, sem mente que se lhe diga ou cultura de que se fale! Ganhem forças e venham para o mundo real, aqueles que escolhem ficar presos à pequenez a que parecem estar condenados, talvez com medo de qualquer coisa mais que si, quem sabe? Não hei de o saber eu, mas grito na mesma pela sua remodelação de pensamento e por aquilo que é a minha pena deles todos… A compaixão que sinto por estes meus antigos cocidadãos, agora afogados na sua mediocridade – que é voluntária para alguns, vá-se lá saber porquê – é o medo que se fiquem por aí e que por isso se contentem, como fracos apologistas da aceitação de tudo o que lhes aparece à frente…
“Isto não é forma de viver!” grita-me a alma, enquanto as cinzas do tal café me desaparecem das mãos, com elas indo-se também todas as memórias que lá tive, como simples areia de uma praia, que muda eternamente nos ventos fortes

(A.O.)

Tenho grandes ideias

Tenho grandes ideais
na minha ânsia
de uma qualquer imortal glória…

Tive poucos materiais
na minha infância
para que se fizesse qualquer História…

Ah, quero ser imortal!
Tenho sonhos de fama,
assentados numa vaga estupidez!
Não considero o racional.
Morrerei na lama,
destroçado na minha estupidez…

Ideais me que me comovem,
tenho-os nesta eterna espera
pela soberba e imortal fera…
A fera das explosões!
O monstro das revoluções!
Como amo eu as bombas que chovem
quando o homem quer ser profundo,
tentando querer mudar o mundo!

Ah, que rebente a existência!
Pela razão, que se desfaça tudo o que é sagrado!
Dane-se o mundo e o que é guardado
na tradição pela mais pura insistência!
É tremenda teimosia,
ter uma vida e vivê-la assim!
Traz-me profunda agonia,
quem não abrace o frenesim
de uma vida pura e moderna!
Faça-se a alma divina e eterna!

(A.O.)

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Revolta

Tenho grandes ideias de revolta,
para que se renove o espírito da sociedade.
Que se dê à população rédea solta,
para que ocorra uma tão esperada atrocidade.

Não há motivo para não
erguerem as multidões o estandarte

de uma outra maior revolução...
Ah, que isto sim será a arte!

Tenho grandes ideias de mudança,
erguendo uma ponte para outra Era!
Ignoremos esta pacífica herança.
Considerar a calma de outrém? Pudera!

Não há pretexto para negar
o começo de uma nova grande guerra...

Em nome do progresso, iremos enterrar
os costumes de passividade na profundidade da terra!

(A.O.)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Ossos e Espírito

Os ossos dos calmos não são vistosos,
apenas recordações, perdidas no momento...
Não conseguiram estes imbecis ser gloriosos,
no seu viver estagnado e lento...
Mas foram bons, leves e amistosos,
presos em estar parados no tormento
de não ter dias de sangue e violência...
Ficaram vivendo, na serena paciência!

São admiráveis os espíritos inquietos,
aqueles que não se contentam com o nada...
Estes têm ao perigo, à morte e à vida afetos,
pela sua viagem dorida e honrada...
Poderão, eventualmente, não estar corretos,
os que querem uma vivência martirizada?
Como? É uma divina maneira de viver,
a destes que conseguem apenas tentar morrer!

Físicos e efémeros os que são
capazes de viver sem tentar mudar o mundo.
Existem, mas verdadeiramente não
vivem para conseguirem algo que seja profundo!

Eternos e modernos o que ficam,
torturando a sua mesma cultura.
Gritam e, verdadeiramente, crucificam,
qualquer passado de amor ou de ternura!

Os que param a sua vida,
acabam por perder uma alma sofrida...

Os que se sagram dominadores dos seus destinos,
hão de sagrar-se, com certeza, mais que divinos!

Há que deixar de viver na futilidade...

Ah, o atingir a espiritual imortalidade!

(A.O.)