quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

"Morte e Insatisfação"


I

Absorto,
calmo e episódico.
É um viver demente
e aborrecido
com a saudade
do que foi já vivido,
de viver diariamente…
É o desejo irreal
pelo que não é natural,
por aquilo que é
espasmódico:
o que não deixa tranquilo,
mas põe-me outra vez de pé,
pois estou morto…

II 

Espírito morre!
Pinta-se o mundo de cinzento,
por plena falta de talento
o poeta corre!
Galopa, fugindo
de todo o seu tormento.

Está farto!
Não quer viver fingindo,
das paredes de seu quarto
- agora de cor cinzenta,
pelo que o espírito aguenta -,
que passa a vida apenas rindo.

Escreve!
Cria-se e desfaz-se,
porque assim se atreve,
este fanático de viver.
Há de assim morrer,
mas satisfaz-se?

Não!
Porque sua alma
não está leve.
Uma confusão pesada,
pela mágoa arrastada…
Ah, o desejo pela calma
numa jovem vida breve!

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

"Lamentações de Uma Flecha"

Corri, 
fui simples e absoluta flecha
com sonhos absurdos
de chegar a qualquer coisa, 
sem reconhecer que existe a realidade de cair. 
Estava condenado à queda, 
num voo que nunca foi voo, 
porque nunca tive asas.

Tentei voar
sem assistência de penas
bem feitas das palavras alheias,
mas nada consegui...
Falhei, afogado na mediocridade
de mais alguém que se acha superior
por saber escrever por mero acaso...

Os meus sonhos de glórias grandes por outros exprimidos!
Oh, como nunca foram nada
estas demonstrações de fraqueza,
que se sagram agora simples sinais de negação....
O negar do peso inexistente do meu génio!
Ele nunca existiu, porque sou uma farsa,
uma vaga imitação de um poeta puro... 

Finjo-me filosófico, culto e eloquente,
mas continuo sem me convencer de nada disso...
Nunca serei nada disso,
se tento apenas sê-lo ao lamentar-me que não sou nada!
Arremessado pelo mundo à vida,
simplesmente escrevi com grandes sonhos e ilusões... 

Deixem-me descansar, dar às asas queimadas
um fim devido, cair com a ponta da flecha no chão,
para que possa finalmente morrer... 
Nunca fui artista que se prezasse.
Puro? Apenas uma vaga imitação.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Numa dita alameda

Numa dita alameda de pequena cidade, um cafezinho é mergulhado em chamas, enquanto olho atentamente para uma fotografia que procuro esquecer. Mais nada faço, apenas fitar a fotografia e desejar que o estabelecimento pudesse mais depressa arder da minha memória que do papel que o representa – uma antiquada demonstração do futurismo, esta fotografia.
Ossos de província queimam e com eles o resto das recordações que antes fiz em tão pútrido e seco lugar. São os corpos efémeros dos que não duram que vão sendo engolidos pelas chamas de isqueiro que me emprestou um sujeito misterioso, que me disse que queimasse o passado – bom homem, pareço concordar com ele, mesmo dizendo ele que não tem a disponibilidade para falar – e não é com pena que queimam, é com esperança num futuro próximo, porque é apenas isso que poderei querer agora ter.
Que expluda também o café real, não só este figurado! Aprendam eles a ser melhor que o meu passado simples, sem mente que se lhe diga ou cultura de que se fale! Ganhem forças e venham para o mundo real, aqueles que escolhem ficar presos à pequenez a que parecem estar condenados, talvez com medo de qualquer coisa mais que si, quem sabe? Não hei de o saber eu, mas grito na mesma pela sua remodelação de pensamento e por aquilo que é a minha pena deles todos… A compaixão que sinto por estes meus antigos cocidadãos, agora afogados na sua mediocridade – que é voluntária para alguns, vá-se lá saber porquê – é o medo que se fiquem por aí e que por isso se contentem, como fracos apologistas da aceitação de tudo o que lhes aparece à frente…
“Isto não é forma de viver!” grita-me a alma, enquanto as cinzas do tal café me desaparecem das mãos, com elas indo-se também todas as memórias que lá tive, como simples areia de uma praia, que muda eternamente nos ventos fortes

(A.O.)

Tenho grandes ideias

Tenho grandes ideais
na minha ânsia
de uma qualquer imortal glória…

Tive poucos materiais
na minha infância
para que se fizesse qualquer História…

Ah, quero ser imortal!
Tenho sonhos de fama,
assentados numa vaga estupidez!
Não considero o racional.
Morrerei na lama,
destroçado na minha estupidez…

Ideais me que me comovem,
tenho-os nesta eterna espera
pela soberba e imortal fera…
A fera das explosões!
O monstro das revoluções!
Como amo eu as bombas que chovem
quando o homem quer ser profundo,
tentando querer mudar o mundo!

Ah, que rebente a existência!
Pela razão, que se desfaça tudo o que é sagrado!
Dane-se o mundo e o que é guardado
na tradição pela mais pura insistência!
É tremenda teimosia,
ter uma vida e vivê-la assim!
Traz-me profunda agonia,
quem não abrace o frenesim
de uma vida pura e moderna!
Faça-se a alma divina e eterna!

(A.O.)

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Revolta

Tenho grandes ideias de revolta,
para que se renove o espírito da sociedade.
Que se dê à população rédea solta,
para que ocorra uma tão esperada atrocidade.

Não há motivo para não
erguerem as multidões o estandarte

de uma outra maior revolução...
Ah, que isto sim será a arte!

Tenho grandes ideias de mudança,
erguendo uma ponte para outra Era!
Ignoremos esta pacífica herança.
Considerar a calma de outrém? Pudera!

Não há pretexto para negar
o começo de uma nova grande guerra...

Em nome do progresso, iremos enterrar
os costumes de passividade na profundidade da terra!

(A.O.)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Ossos e Espírito

Os ossos dos calmos não são vistosos,
apenas recordações, perdidas no momento...
Não conseguiram estes imbecis ser gloriosos,
no seu viver estagnado e lento...
Mas foram bons, leves e amistosos,
presos em estar parados no tormento
de não ter dias de sangue e violência...
Ficaram vivendo, na serena paciência!

São admiráveis os espíritos inquietos,
aqueles que não se contentam com o nada...
Estes têm ao perigo, à morte e à vida afetos,
pela sua viagem dorida e honrada...
Poderão, eventualmente, não estar corretos,
os que querem uma vivência martirizada?
Como? É uma divina maneira de viver,
a destes que conseguem apenas tentar morrer!

Físicos e efémeros os que são
capazes de viver sem tentar mudar o mundo.
Existem, mas verdadeiramente não
vivem para conseguirem algo que seja profundo!

Eternos e modernos o que ficam,
torturando a sua mesma cultura.
Gritam e, verdadeiramente, crucificam,
qualquer passado de amor ou de ternura!

Os que param a sua vida,
acabam por perder uma alma sofrida...

Os que se sagram dominadores dos seus destinos,
hão de sagrar-se, com certeza, mais que divinos!

Há que deixar de viver na futilidade...

Ah, o atingir a espiritual imortalidade!

(A.O.)

Masoquismo

É tempo de deixar
que seja o mundo dominado pelas gentes
que nada mais querem que pensar...
Que se partam nas alamedas os nossos dentes!

É nada mais que uma rutura
de uma imensa intensidade
aquilo que proponho na cultura...
Que se tragam agora dor e vivacidade!

É uma vaga pútrida mania,
esta masoquista e brutal existência,
que quero que me esmurre com as pedras da agonia...
Que se revele na dor a nossa essência!

É este o lugar para que se faça
uma dolorosa mudança por meio de mutilações,
que atraem a alma como a luz atrai a traça...
Que se encham as ruas de exibições!

Chamo o presente turbulento!
Evoco mais nada que a minha ira!
Gritando, abandonei a lira,
assumindo um futuro bruto e sangrento!
Mas que sentido faz, não ser assim,
derrotado e espancado pelas ruas?
Neste inerente masoquismo que há em mim,
correm-me pela alma sensações nuas!

(A.O.)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Quero lamber a vida...

Quero lamber a vida!
Um qualquer viver de divindade,
vivendo na insana futilidade
de ter a alma invertida,
daquilo que se diz normalidade,
por mais que não seja esta vivida!

Não quero uma alma parada,
num pequeno e parvo espaço.
Prefiro ter a vida acabada
e que seja brutalmente escasso
o que me faz puramente viver...
Ah, que quero agora morrer
se não puder ser mais que um fracasso!
Não se dará minha vida por derrotada.

Espero não vir a perder
a vontade, gritando assim, de fúria

Isto é um rimado escrever,
onde se vai cantando o mundo.
Vai-se gritando a minha lamúria
para ser algo mais profundo
Do que aquilo que pareço ser!
Ah, que quero ficar para a História!

Não procuro nada mais que a glória
com a qual não pude crescer...

(A.O.)

terça-feira, 9 de outubro de 2018

"Procurando a sensação absoluta"

I
Olho para os meus óculos e suspiro,
mas não há poesia que acalme a minha ânsia!

Tomo as letras como sentimento,
procuro criar essa poesia,
usar palavras para sentir tudo,
porque não o sensacionismo?

II
Desfaço-me em poemas,
devo fazer ódio e alegria nos versos,
mas primeiro...
Primeiro...
Primeiro incita-se a violência...

Para que me desfaça,
terá de haver violência,
maior que aquela entendida num suspiro
mirando um par de óculos...
Violência a sério,
violência à bruta e verdadeira!

III
Corro pelas pedras das ruas
e salto pelo alcatrão das estradas
que acompanham as grandes avenidas.
Nada disto é verdade,
mas é sentido como real.

Tropeço com a rapidez do meu passo,
vindo a rebolar
pelo chão que me vem a rasgar,
esfolar, ferir, mutilar,
até que possa morrer-me totalmente a alma.
Há ódio próprio em tanta chacina,
sendo que me odeio à medida que sou desfeito.

IV
Ali fico,
massacrado como a inocência de uma virgem
que descobre a liberdade de ser cruel...
Ali deitado,
entre carros que me atropelam
e as pessoas que nem me olham,
exaustas do que é moderno...

Totalmente desfeito de mim,
poderei fazer do que sou qualquer um,
provando-se a dor de morrer uma dádiva
de um sensacionismo hiperbólico.

Down My Face Tears Fell

Down my face tears fell
Endlessly like they were under a spell
They created a pool at my feet
Just as quick as my heartbeat

I told myself it was only a dream
That it wasn't what it seemed
Because my eyes were blurry
With the tears' hurry

I shouted some ugly words
That probably hit him like swords
I simply couldn't hold on anymore
I was truly too damn sore

But those words came back to me
Hit me like bullets I couldn't see
Numbed me like the effect of an opium flower
The taste of my tongue plainly sour

In the mirror I looked at myself in the eyes
Watched the tears fall like drops from the skies
I hoped that my bullets or swords
Weren't deadly words 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

"Eternidade"

Se a eternidade nos falhar, 
teremos esta vida e o passado, 
um passado de armas e sangue, 
de conflitos e estrondos
e um presente que é agora apenas, 
sendo passado em meros instantes, 
pela velocidade do tempo. 

A eternidade cai, 
falha, nas garras da humanidade, 
morrendo a mentalidade, 
condenados os grandes ficam à lembrança, 
ao seu trabalho e à sua herança. 
Se a eternidade falhar continuamente, 
haverá espírito algum que suceda?

O pensamento do ser humano
em moralidade e mente coletiva
é mutável e breve, 
como um fôlego de vapor numa manhã fria... 
Somos efémeros, nós humanos. 
Somos instantes, nós espíritos.

sábado, 6 de outubro de 2018

"Poemas finais"

I
A besta alcoolizada rasteja no chão
e penso se acabarei este caderno.
Quanto faltará
até que se encerre o estilo
e se possam demolir as catedrais erguidas
nesta amostra de papel,
produto da intervenção da força humana
na delicada natureza?


Isto não estão a ser estrofes,
nem tão pouco é prosa,
apenas palavras.


A humanidade penetra-me o quarto,
no mais puro dos homens,
aquele que é bruto e irreverente, 
filosófico e estúpido, 
anacrónico e antagónico, 
fora do seu tempo, bem conhece o homem dos bigodes...

Fala da noção da vida
e questiona o que será!

II
O quarto está uma confusão?
O mundo está uma confusão!
Um caos lindo e bruto,
de nada mais que o natural humano.


Merda,
que o espírito é uma confusão,
uma falta de propósito que se conta
nos mais altos padrões de sociedade,
porque é lindo,
porque é vápido e fantástico,
ser-se niilista em tudo!

Armadas destes vermes
patrulham os mares da ignorância,
com esperança de morrer
e andar de quem sabe mais,
por serem mais miseráveis que outros!

Ah, que me agonizam estes!
Pseudo-intelectuais da fúria de viver,
que fazem nada mais que nada,
porque o seu ponto é morrer... 

Exércitos destes ratos desesperados,
invadiram as ruas há muito,
tomaram as avenidas,
infetaram as cidades!

Sem saber vencer-se a si mesmos,
negar a sua filosofia e avançar,
ficam a condenar o lugar onde vivem!

Marcham eternamente
para a sua própria destruição... 

Caminham lentamente para que morramos
todos. 

III
Apunhalados escravos de outros,
que vos deixaram por serem mais que vós,
revoltem-se!

Abandonem o vosso passado,
na tradição não há pensamento
que justifique inferioridade!
Levem acima o acaso e o caos da
fúria de uma boa guerra,
façam tremer as bases e fundações!

E que se mandem abaixo essas bases,
lutem por algo novo,
algo mais que o nada
em que se baseiam...
Encontrem-se na agonia!
Fundam-se no caos, furiosos escravizados,
oprimidos pelo universo,
pela vida e por tudo!

Nada aceitem,
e rejeitem viver por nada,
não se juntando aos que vos oprimem
da vossa própria vontade
de algo melhor.
Partam as correntes do niilismo e da velhice!
Que algo novo brilhe num horizonte livre!

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

"Rossio"


Planos de um pôr do sol de avenida,
inundados de melancolia de saudade futura,
que vão sendo embrulhados numa suave voz…

Estátua de um enorme passado, nesta mesma praça,
que se faz passar bem com a nostalgia,
toda ela é feita de sentir falta de qualquer coisa…

Reunião intersetada de presente e futuro,
cruzando-se alma e seus redores, passado e presente,
no que são momentos significantes de reinos distantes.

Uma fonte que se depara consigo no meio da praça,
fitando prazer momentâneo e glória anterior,
fica estagnada, simplesmente, no momento presente…

Para-se-me a fonte, com as correntes que se partem da história
e abre-se-me a praça como um universo melancólico,
em que reina entre as estátuas a saudade,
mas que me apresenta também a glória dessas mesmas estátuas!

O tamanho de tudo é tonto, ansioso e apavorado,
mas estátuas e monumentos erguidos pelo êxtase da glória
abrem e guiam o caminho para o abismo,
em busca da fé para vencer a vida!

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

"Mundo aos Lunáticos"


A meu ver,
que dancem os lunáticos,
nus nas ruas,
gritando a morte dos seus líderes!

Porém,
que apenas o façam
caso
forem verdadeiramente lunáticos,
sendo
que apenas são lunáticos aqueles verdadeiros humanos.

Que se acordem os doidos das sepulturas,
para correr as avenidas com excentricidade!
Que se cantem eulogias aos antigos mortos,
para que nos façam a nós mesmos modernos!
Que sejam, então, os lunáticos a fazê-lo,
para que estes possam trazer mudança e revolução!

No meu olhar,
pouco é melhor que ressurreição
desta antiga tradição,
apenas para que a matem os lunáticos que dançam,
trazendo depois melhor!

O mundo pertence aos excêntricos,
dos que dançam o desprezo à vida aos que o matam essa mesma dança!
O mundo pertence aos lunáticos,
dos que reclamam a morte aos líderes aos que combatem o inferior apenas por ser inferior!
O mundo pertence aos malucos,
dos que se riem do absurdo aos que nada fazem que não causar o absurdo!

Se à futilidade pertence a existência,
porque não pertence já a existência àqueles que melhor usam a futilidade?
Que assim seja!
Que assim se faça!
Ceda-se o mundo aos lunáticos,
aos excêntricos,
aos malucos!
Deixe-se que governem tudo, para que possam ser as civilizações puramente verdadeiras…
Sim! Puramente humanas, serão agora as pessoas,
lideradas por quem se apercebe da realidade de ser.

Ah, que se dance nas ruas ao sabor desta gente!
Lancem-se desfiles e paradas pelas cidades!
Celebre-se a futilidade e celebrem-se aqueles que a conhecem,
com fogos, motins, paradas e explosões!
Faça-se um ruído extremo,
faça-se um barulho de revolução!
Ah, que se acorde Deus desde as ruas cosmopolitas,
para que Ele se lembre que é inútil!
Para que Ele morra de vez!

Morra Deus!
Perante a berraria humana,
governada pelos lunáticos,
que morra qualquer conceito de divindade!
Que morra qualquer ideia do sagrado,
que pereça a necessidade de acreditar em falsos paraísos!

A era dos que não se escondem por trás de promessas de símbolos…
É isto que está certo acontecer,
para que seja revelada a verdadeira Humanidade!
A Humanidade que não se contenta com o medo da ação devido ao julgamento,
seja este divino ou puramente social…
A Humanidade que não se conforta com propósito ou razão,
e que, portanto, não se inibe nem se esconde de nada!

Esta será a real Humanidade!
Esta será uma verdadeira existência!
Que venha, então, uma Idade negra,
perante um novo regime de dançarinos e palhaços, 
que confrontam a escuridão!

Venha uma Era sem propósito,
em que apenas têm razão os que sabem que não há razão!

sábado, 15 de setembro de 2018

"Fuga"


‘Foge!’
Falo assim comigo, num grito agonizante que não cessa.
Assim me ordeno e vou fazendo isso: evadindo aquilo que não quero enfrentar, numa perpétua distração da vida.
Como me persegue tudo o que é horrendo, continuo a correr, sempre meros passos à sua frente.
Sinto, por vezes, o toque macabro de algo mais, que pode estar a correr mais rápido que tudo o resto.
Porém, passo a vida a correr, cavalgando apenas na minha ansiedade, cavalo sem nome ou razão de existir.  

Desmontar, agora?
Parar a correria parece apenas uma forma de deixar com que me apanhem vida e morte.
Fazer frente a este violento bombardeamento de mim é despropositado e mortal…
Nada faria senão ceder perante o fogo! E que se daria dentro deste fogo? O meu fim mortal, por tudo o que sou?
Não saio das costas deste cavalo gritante e frenético porque ao seu frenesim me habituei, simplesmente.
É familiar, a este ponto, não fazer nada para tentar defender-me, pensando que me afundaria mais se o fizesse.

Pondero o confronto das ondas…
O pensamento de tais águas traz-me o pânico do afogamento, vindo então a sufocar-me…
Fico, então, à superfície da água, flutuando por uma realidade que me é estranha pela falta de investimento que nela tenho.
As coisas deixam de fazer sentido, porque não posso permitir que o façam…
Significaria deixar de fingir, tirar a máscara, sair do cavalo e levar com tudo aquilo de que fujo há meses…
Orgulho-me de nada, mas menos sofro pela ideia repetida de falta de confronto que arrasto pelo chão ao longo destas palavras….

Merda!
Esta amostra de poema não faz nada para arte, apenas anda às voltas nos meus pensamentos, pondo em palavras o que me perturba!
Este velho cavalo, num pânico constante, tem apenas energia restante para fugir...
Usando palavras mal arranjadas, descrevo um animal inexistente, que me carrega, com membros cansados…
As linhas escritas esta noite fazem tanto sentido como a própria vida: algo enfeitado com pouca beleza que não é nada mais que vazio quando melhor examinado…
Contudo, continuo a escrever, sem saber a razão pela qual o faço, frases que me atacam lentamente.

Morrerá o cavalo, eventualmente…
Não há otimismo em prever o que se dará quando for destruído pelo que me assombra, mas poderá haver para o que vem depois.
Que se chame a isto uma ilusão poética ou apenas vaga estupidez, mas há esperança em mim de que o cavalo possa descansar.
Quero apenas permitir que o animal repouse e renascer com a força de quem se enfrentou, voltando do desastre.
Será possível?
Deixem-me acreditar que sim, esperando a morte do cavalo…

(Uma mentalidade aleatória, resultante num poema de merda)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

"Inferno"

É o Sol quem me ilumina como anjo caído,
puxando-me
por tudo aquilo que já foi perdido…
Mostrando-me
quem pensava eu ter morrido.
Apenas pelas suas palavras vou vendo
quem acabaram estes humanos sendo…

Vou sendo guiado por um poeta,
neste inferno
depois das praias do meu ser…
Ah, como é fanático, o profeta,
filósofo eterno!
Veio inspirar-me a escrever!

No calor de todo o meu tédio, vou descendo até aos confins do significado, acompanhado por quem tem, melhor que eu, qualquer dom de palavras e iluminado pela Estrela da Manhã, sem a qual nada vejo…

Que encontro na profundidade que não sejam artifícios de espetáculo, rodeando a miséria numa boémia meio vazia, que tão bem reverenciada por quem me guia que este, que sofre tédio também, encontra nela cura?

Questiono-me, mas vejo apenas isso, mesmo tendo uma já morta esperança de que mais se consiga encontrar: uma linha de importância entre tanta irritação e fútil festa, que dê significado a esta feitiçaria tão bela e moribunda!

segunda-feira, 30 de julho de 2018

O Não-Fim

Sou uma anarquia cansada,
um revólver mal carregado e deixado em casa
de um velho pistoleiro reformado,
que ainda espera os seus tempos de glória…
Não fiz nada senão trabalhar um campo,
enquanto via a vida passar
e os velhos tempos desvanecer…
Ah, que ergueram cidades e florestas de betão,
onde tinha eu as minhas memórias de árvores felizes!
Ainda tenho eu as emoções antigas,
das matanças das guerras e das mudanças…
Como me eram calmantes aquelas visões dos campos que agora não o são…

Sou uma revolução das grandes,
daquelas que se sonham e nunca se fazem,
e que, quando se fazem, conseguem ser tudo menos o que se espera,
como uma pobre antecipação do povo…
Não dei em nada senão em mais revolta,
a plebe continua furiosa!
Levantam-se bandeiras
e marcham em linha, ao ritmo de si mesmos,
todos aqueles que ainda me têm no espírito,
por não estarem satisfeitos com o meu resultado!
Nada acabou ainda!

“All That Once Shined”


Brilha agora mais uma vez tudo aquilo que outrora se banhou ao sol de uma glória que pensava estar extinta completamente: os meus dias vida num verão que pensava nunca mais chegar. É com alguma velocidade de viver que nos fazemos todos ao êxtase e à boémia que se pode obter numa pequena cidade à costa, no Sul de um país assim… E que voltem os momentos do passado que agora relembro com saudade de quem está morto, tendo uma vez sentido vida própria e propósito.
Foram esses tempos distantes os meus dias de propósito e de alguma felicidade, em que nada precisava de fazer sentido porque tudo tinha uma razão de ser, ou assim o pensávamos. Mesmo sentindo-me incapacitado para escrever a horas altas, avanço com as letras e com um dom mal treinado, descrevendo a minha lembrança de tempos que agora me fazem querer chorar de nostalgia e poder convencer qualquer divindade ou universo distante e frio – digo isto pela minha certeza da sua frieza inerente – a deixar-me voltar a tais ocasiões…
Porém, não me deixam! Sou forçado por tudo aquilo que é lógico e natural a ficar sujeito à movimentação do tempo e a aceitar que vida continua, abandonando-se os bons velhos tempos como se abandona um ente querido morto, que fica simplesmente vivo na memória… Na minha memória, então, ficam estas vivências da estupidez do passado, quando éramos um bando inocente de solitários fúteis sem razão de ser ou noção que assim o éramos e é aqui, apenas, que fica esta minha antiga vida! Ah, que tudo o que brilhava anteriormente simplesmente morreu, desaparecido nas areias do tempo que me pesam como tudo na consciência!
Mesmo sabendo isto, não vejo outro remédio senão tentar recriar estes tempos únicos e gloriosos, na esperança de restituir toda a minha antiga felicidade. Assim se fez nas noites anteriores a esta, correndo de ponta a outra deste poço de história à velocidade dos tempos antigos para que se pudesse reacender em mim a sua chama…. Diria que é uma demanda nobre, aquela de querer viver outra vez, buscando a vida eterna da alma jovem que quer descobrir e viver constantemente o que é novo e, por dizer que é nobre, assim o tentei fazer, com algum sucesso. Que novas almas e memórias, entre perguntas parvas e cones de trânsito puxados até casa por filósofos, vim a encontrar com esta vida!
Saio desta tentativa de glória com satisfação e náusea, mas esta segunda acompanha-me sempre.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Sufoco

O que é um ser bifurcado?
É um que existe entre identidades que não são a sua,
amando diferentes parecenças…

Bifurcada, existe sempre a pessoa,
na encruzilhada que a separa daquilo que verdadeiramente é…
Não há caminho nem alternativa que não aperte…

O que é uma pessoa senão um torniquete?
Torce-se à força toda a humanidade de ser assim,
buscando aquilo que se é…

Torcido é um ser que se espreme todo para ser,
porque a sua essência não é descoberta de outra forma…
O sonho da descoberta aperta a realidade!

O que é uma identidade senão um sufoco?
Vai-se fazendo uma tortura à alma para se conhecer,
para que conviva com tudo o resto…

O resto é nada mais que a insignificância
de um mundo que nunca se fingiu importar…
Este mundo que tudo impõe ao ser, sufocando-o ainda mais...

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Pavoneando sobre o Universo - I


Vejo o universo inteiro no regresso cansado. Estou num retorno que é apenas simples retorno, que é apenas temporário, por mais permanente que possa ser. É temporário porque é tudo temporário, como aquilo que posso ver, quando me imagino disposto na linha do tempo que ainda tenho para cá estar, seja nesta vida ou neste lugar no qual me encontro de regresso, com fraqueza de alma e estupidez das minhas emoções…

Movendo o meu corpo acima do chão,
vou balançando e vejo todo o universo…
Caído na realidade de um corpo astral,
motivo-me a mim mesmo a ver para lá desta Terra…
Recuperei-a!
A minha visão inteira de um plano astronómico…. Recuperei-a!

Tenho-a de volta, por instantes, e por esse tempo, ela assombra-me como se fosse algo razoável, o ter medo do infinito e daquilo que nunca vamos conseguir controlar. É como se fizesse sentido, o susto da pequenez humana que por mim é sentida naquele momento, ao confrontar-me com a mortalidade das estrelas, com a sua distância e com tudo mais que o céu noturno me mostra.

A miséria cósmica
das luzes projetadas na tela do céu da noite,
que me fazem passar por um parvo com megalomania,
que fazem a Humanidade inteira passar por um parvo com megalomania,
porque revelam a nossa insignificância!
É isso que tenho de volta,
depois de o perder há tempos atrás,
quando imaginava universos ao olhar para um céu pouco iluminado…

O sentido de nada fazer sentido…
A vertigem de olhar para o Definitivo…
O terror da escala de todo este monstro que nos rodeia nos astros…
O medo da pequenez humanitária…
O pavor da Insignificância!

Ah, como tive saudades de me sentir afogado na liberdade que a grandeza universal me dá, e da febre que com ela vem, de saber que não há limites às desinibições da minha pequena estupidez! Sufoco-me nesta escala toda e aceito que o universo pouco se importa, libertando-me de deuses, santos, astros, destinos e banalidades comuns, pois isso para mim pouco me importa! Agarro com os dentes as oportunidades de tudo aquilo que existe, que não tem a mais pequena demonstração de carência pela minha existência, pois tão pouco terei eu qualquer carência pela sua, e vivo! Por momentos, consigo estar vivo…

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Elevação ao divino


Procura elevar-te,
ser mais do que tu és,
em mais maneiras do que és…
Procura que em ti nasça um desejo,
desejo antigo de mais,
que antes era atingido por menos que tu tens.
Ah, mas que agora que nasceste é diferente!
Agora queres mais que eles dantes,
porque te achas mais e melhor que eles
e por isso não tens o desejo!
Mas procura,
porque vale a pena procurar a elevação…

Já te nasceu o desejo à divindade,
dá para ver pelos teus olhos.
Estás diferente, mais astuto e determinado.
Estás modificado, a tudo estás aderente,
pelo que se nota que o desejo nasce.
Que belo nascimento!
O nascimento de um desejo de elevação,
de ser mais que tu,
de ser mais que mais que tu,
de ser divindade,
de até ser mais que um deus!

Que se desafiem as religiões do mundo,
porque queres tu o poder,
queres tu agora ser o deus dos homens,
venerado na tua insatisfação por não seres nada!
Como és parvo por te veres assim,
e como são parvos os outros por não acharem de ti isso.
Ah, que nasceu!
Ah, que está cá o desejo de ser maior que tu…
Tornaste-te uma génese daquilo que queres ser,
uma génese que não passa disso,
ser que nunca se realizará…

Mas perde-te…
Vá, perde-te,
naquela futilidade do desejo de megalomania,
naquela vaidade da sede de poder,
naquela inutilidade do humano!
Perde-te no desejo de melhorar e eleva-te,
porque só assim é que melhoras,
porque só assim é que vives!
Tu que quebras o impossível e atinges o divino,
numa superfície mental que é só tua,
numa visão social e irrealista que não é de mais ninguém…
É só tua,
toda tua,
esta vontade de seres tu e mais que tu!

Sê assim,
completo e divino,
divino e completo,
completamente divino
e divinamente completo!
Sê como és,
uma sé da fé qualquer que tens de ti,
o seu único praticante!
Sê só,
sozinho em câmaras de ti,
porque as câmaras que criaste despropositam os outros…
Pois despropositam, não é?
Os outros,
que inúteis que são,
mas não são inúteis para poder dizer-se que és um deus!

Elevas-te besta, em solto verso,
porque mereces,
és humano e mereces ser uma besta do submundo,
um monstro divino de ti mesmo,
forjado da parte forte e feia da sua vontade,
também ele feio, forte e cheio de vontade!
Elevas-te acima de tudo,
porque assim te achas,
superior aos anjos,
igual a deuses,
ou superior a eles, tal é superioridade ti!

Elevas-te, agora que te vejo,
e é admirável que te eleves…

Tornas-te o sonho dos homens,
abandonando os homens,
descartando quem és,
trocando identidade pelo poder de seres mais que tu!
Era isso que queiras, não era?
Já não és humano!
Já não és nada,
senão a besta de um deus,
um deus que é uma besta, porque é uma besta que se elevou a deus!
És tu, isso,
repara bem, meu monstro divino,
armado da sabedoria eterna,
mas que não consegue ser belo ou bom!

Ah, mas agora satisfizeste-te!
Cumpriste o desejo de seres mais,
chegaste à realização de ser divino!
E agora? Onde está o teu desejo,
para que lutas com a natureza,
para que guerreias com a vida,
se ganhaste todas as lutas com o natural
e conquistaste a morte com o poder?
Ah, descobriste o que é divino e gostaste,
aliás, até gozaste demasiado do que encontraste,
mas eis que morres,
estagnado no aborrecimento!
Eis que cais para o tédio!
Eis que amaldiçoas o poder,
porque agora é tudo fácil,
agora nada há que fazer e tudo já foi feito antes,
mesmo quando é tudo original!

Cais em ti mesmo e percebes que a divindade não é desejável.
Queres voltar atrás, por isso abdicas de tudo para viver outra vez sem desejo…
Doce eterno retorno…

terça-feira, 10 de abril de 2018

Universo


Nas quatro paredes que contêm um universo,
sinto uma extensão do meu universo,
sem sentir a maior grandeza de um colossal cosmos,
ou pensar numa monstruosidade espacial exterior…
Não consigo pensar nisto!
Não posso encarar a escala de tudo!
Pensar na minha própria inexistência cósmica
é impossível da pequenez do meu mundo privado…

Tudo o que existe
são as minhas ideias de tudo aquilo que existe…
Tudo o que vive no universo
vive dentro da construção do meu próprio pensamento!
Preso fora da realização de tudo o resto,
a minha mente consegue criar tudo dentro desta cela,
destas paredes que apresentam como novos astros!
O egoísmo mental de se pensar nisto…
A megalomania de pensar assim…

A imaginação limita o cosmos,
reduzindo a realidade para a falta de propósito,
que se vive diariamente sem o mundo exterior…
Sem o mundo exterior,
criando tudo com a mente…
A poderosa mente egoísta que se acha divina!
A convencida estupidez de um novo nascimento cósmico,
que é um milagre existencial de um solitário poeta!

Grito, poeta cósmico do pessimismo,
preso na cela mental,
de quatro paredes que me fecham na significância,
ilusória,
de criar universos despropositados!
Grito pela criação de novas realidades gigantes,
novas estrelas e astros encerrados numa realidade mais pequena,
sem a realização de mim,
do quão pequeno é este novo universo!
Grito por tudo o que existe aqui,
e apenas por aquilo que existe aqui,
encerrado neste espaço pequeno,
pela simples razão que mais nada existe!
Pelo estúpido motivo que não há mais que o que me fecha neste espaço!

Derroto-me no terror desta subjetividade,
que me faz esquecer,
mais uma vez, a escala…
Fico imóvel, em meditação desta ordem astronómica,
e visualizo uma dança anárquica,
que tem tanta insignificância como beleza…
Manifesta-se tudo na vida, e grito por uma maior criação!

sábado, 3 de março de 2018

Na forma e na doença

Os gritos da melancolia de anteriores mortos,
com uma angústia miserável,
As ânsias da vida dos que partiram,
com uma terrível raiva a tudo,
As tristezas de todos os nervosos homens...
Faz isto abanar o meu ser em mais nada que nada...
Faz isto em mim espasmo,
de batimentos cardíacos e preocupações vazias.
Ah, fazem uma vida cheia
da riqueza de estar a ser atacado pela fútil neurose insatisfeita!

Um corpo que morre,
num espírito que é executado por tudo,
sem qualquer boa razão para tal execução...
Calculada, experimentada e humana!
Médica, metódica e miraculosa!
Uma fantasia da cura de tudo e mais alguma coisa,
esta execução de corpo e mente sem razão!

A indecisão assenta...
Sob efeitos do universo humano escrevem-se versos,
inspirados em artificiais estrelas,
que naturais apenas têm o facto de serem humanas...
Doente, sob a égide do cosmos,
desdobrando a frieza da vida e do Infinito,
sonhando as viagens da aventura e da descoberta em tempos difíceis,
não se faz mais nada...
Escreve-se!

Na imensidão do universo,
criado na imaginação dos homens pensadores,
criado em honra dos seus grandes titãs,
vê-se um lugar sonhado para a criação...
Arranjando e dispondo mundos e imagens,
desvanecendo-se o sentido de novo,
mantém-se o mesmo no mundo apenas com a forma de dispor mundos...
O original individualista
e o romântico convencido,
afogados no seu ego artístico de divindades da simples Humanidade...
Juntam-se à neurose e aos gritos do passado,
escrevendo, doentes em mim,
numa noite de fins de frio infernal...

A confusão mental não para,
como o tempo, a poesia, a vida e morte...
Na sua fúria assaltam-me os sentidos sem remorsos.
Na minha existência, ataca-me tudo,
tudo...
Tudo menos qualquer parecença de sentido!
Encaro as últimas palavras deste monstro sem motivo,
e sobrevivo a mais um poema...

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Deus III

Ofereça-se uma forca a Deus, 
Pois a esperança dele no moderno morreu...
Pendura-se o Criador pela corda, 
Deus está morto!
Deus partiu para a vida eterna!
Aleluia...

Choram os religiosos, 
Os humanos, 
Aqueles que se entristecem pela morte do líder...
As lágrimas dos crentes, 
Que inundam as páginas do livro, 
Distorcem toda a História das preces...
Apagou-se a vinda do divino!
Acabou tudo o que é sagrado, 
Notando-se que chovem anjos do Céu, 
E que demónios regressam mortos à superfície. 

Outros alegram-se, 
Livres da escravidão, 
Escravidão das escrituras do tirano, 
Que se ocupava de tudo
Para razão de vida, 
Sendo a essência do Homem
Nada mais que servidão...
Estão livres os escravos da teologia!

Deus e o bem morrem, 
Em praça pública,
Dois enforcados num só...
Porque o bom senso dos antigos
Já merecia abandonar a humanidade.
Aleluia para a estupidez!
Aleluia para a futilidade!
Aleluia para o absurdo!

domingo, 14 de janeiro de 2018

Caixa

I - Caixa

Numa caixa,
Fechado, simplesmente existindo…
Vejo-me um ser que nada é,
Mas consegue ser, de uma forma,
Ou de outra forma,
Não interessa, está escuro…
Não me vejo.

Não me vejo, então não existo,
Porque está escuro na caixa,
Porque sou, talvez, apenas esta espaçosa caixa,
Que me sufoca com claustrofobia…
Aqui não sou nada,
Simplesmente nada…

Como digo,
Para mais ninguém que eu mesmo…
Não há mais que o presente,
Não mais existe que a caixa

II - Tempo

Anos passam,
Passam lentamente,
Rodeados e preenchidos de pensamentos,
Instintos e sentimentos.
Tudo aquilo que faz um humano,
Trancado no inferno de uma solitária caixa.

Não sei porque não morro,
Não sei porque não me mataram,
Não sei até porque não me matei a mim, ainda.
É humano, o amor à vida,
É o que suponho,
Nesta mísera vida de caixa.

Cresci, neste tempo,
Incansável, sofro, sem entender o que se passa.
Crueldade da vida que aqui me pôs!
Ódio da criação de quem vive esperando a morte,
Num mundo em que não há nada,
Não, nada!
Nada que não seja aprisionada existência

III – Visão

Visão incrédula do masoquismo,
Abre-se lentamente a caixa!
Estou livre! E para lá corro,
Corro, corro, corro… Para a saída, para o mundo…
Para que acorde e perceba a ilusão,
Em que o sonho da abertura da caixa,
É tão fútil como o da razão para viver assim.

Sofro mais tempo,
Sejam dias, semanas, meses ou anos,
Fico e, assim, sofro nesta caixa,
Sem nunca saber mundo fora da amaldiçoada caixa...
É inútil pensar na saída de algo assim,
Por isso, tenho, perpetuamente, pensamentos e sentimentos.

Ah, qual a razão da minha vida?
Maior miséria eterna de estar.
Estar, existir….  Apenas isso conduz o humano à loucura.
Fico na caixa, esperando esperança.
Esperando esperança e respostas…
Obtenho apenas agonia!

IV – Fim da Vida

É aquilo que se acha um triste dia,
E morrem ossos contra as paredes da jaula,
Fechada e tímida no respeito à vida,
Sagrado inferno,
Em que me banho de desejo de morrer!
Chega da caixa que me limita tudo…

Desisto,
Em credos de existência,
Trago um final ao fim de tudo o que sou.
Contra as paredes!
Contra tudo, e contra o mundo!
Morrerei aqui, com embates violentos no metal,
Fraturando euforicamente o meu ser!

Nem a morte consigo,
Estendido no chão, sem perder os sentidos,
Além do sentido da vida, que perdi há muito,
Essencialmente, assim fico,
Como se morto, como sempre fui…
Desisti, agora fico imóvel…
E oiço o real ranger da porta abrindo.

CIDADE - Raquel Ferraz

"É a luz dos letreiros que chamusca os insectos imprudentes
O cinzento sombrio dos prédios do bairro, a churrasqueira, o costumeiro café e o bar de karaoke
Os rostos amarelados do café e do tabaco, café para despertar, tabaco para adormecer
A luz dos postes que encandeia os fatigados madrugadores e os insistentes semáforos autoritários
O pó conforta os carros e os velhos e sujos autocarros que mal cumprem os horários
Os jovens trabalhadores e as suas mochilas que alpinam.
O timbre resiliente e cansado da ponte que todos os dias sustenta os stresses e afazeres da gente.
É dia dos deveres laborais, académicos, procrastinar. Dia de viver, dia de morrer, viver para mais um dia, nascer para o mundo, viajar em nós ou partir para nunca mais voltar."






Raquel Ferraz (Maio de 2017)