terça-feira, 16 de outubro de 2018

Alberto - Um velho

Foi no metro que conheci o Alberto - não o conheci, nem tão pouco sei se o seu nome será ou terá alguma vez sido "Alberto" -, mas para mim foi sempre esse o nome dele, pelo pouco tempo em que o vi e pensei tê-lo conhecido.
Alberto era um velho, careca e simples, que tinha acabado de sair do dentista, trazendo ainda resultados da sua última consulta nas suas mãos, marcadas pela idade, e entrado no metro de Lisboa, como se para voltar para casa, para junto da sua mulher...
Assumo que Alberto tenha mulher, não querendo ser mais nada que certo, na minha perceção daquilo que era o homenzinho que se sentou brevemente à minha frente num transporte público e que me fez pensar em escrever este texto sobre um velhinho qualquer da capital...
Voltará Alberto para casa, para uma mulher que ama (ou finge amar, apenas, talvez, pelo que poderá ter sido qualquer tipo de casamento de amor fingido - ou talvez tenha o amor acabado à muito e nenhum deles quer morrer sozinho)...
Depois de voltar para casa, verá a programação de sempre: aqueles programas em que gente ganha coisas, que podem ou não ser apresentados por obsesos comediantes, as notícias, que hoje em dia apenas servem para que se oiçam grunhidos do velho homem e, claro, as novelas da mulher...
Alberto não gosta das novelas da sua mulher, nem gostará assim tanto da mulher, mas fica casado com ela pela conveniência de se afastar do medo da solidão; e o que se diz por aí é que a mulher faz exatamente o mesmo!
Este velho de cara chapada, contornos da sua idade, pouco cabelo e óculos pequenos estava à minha frente, sentado com toda a simplicidade de idoso que já viveu muito, que não viverá muito mais, agora, procurando uma rotina normal e ordenada?

Que esconderás, Alberto, meu velho companheiro de carruagem?
Terás visto guerras e revoluções, um mundo em mudança e constante perigo?
Conta-me histórias com as tuas feições apenas, deixa-me que descubra quem és, Alberto...

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