segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Revolta

Tenho grandes ideias de revolta,
para que se renove o espírito da sociedade.
Que se dê à população rédea solta,
para que ocorra uma tão esperada atrocidade.

Não há motivo para não
erguerem as multidões o estandarte

de uma outra maior revolução...
Ah, que isto sim será a arte!

Tenho grandes ideias de mudança,
erguendo uma ponte para outra Era!
Ignoremos esta pacífica herança.
Considerar a calma de outrém? Pudera!

Não há pretexto para negar
o começo de uma nova grande guerra...

Em nome do progresso, iremos enterrar
os costumes de passividade na profundidade da terra!

(A.O.)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Ossos e Espírito

Os ossos dos calmos não são vistosos,
apenas recordações, perdidas no momento...
Não conseguiram estes imbecis ser gloriosos,
no seu viver estagnado e lento...
Mas foram bons, leves e amistosos,
presos em estar parados no tormento
de não ter dias de sangue e violência...
Ficaram vivendo, na serena paciência!

São admiráveis os espíritos inquietos,
aqueles que não se contentam com o nada...
Estes têm ao perigo, à morte e à vida afetos,
pela sua viagem dorida e honrada...
Poderão, eventualmente, não estar corretos,
os que querem uma vivência martirizada?
Como? É uma divina maneira de viver,
a destes que conseguem apenas tentar morrer!

Físicos e efémeros os que são
capazes de viver sem tentar mudar o mundo.
Existem, mas verdadeiramente não
vivem para conseguirem algo que seja profundo!

Eternos e modernos o que ficam,
torturando a sua mesma cultura.
Gritam e, verdadeiramente, crucificam,
qualquer passado de amor ou de ternura!

Os que param a sua vida,
acabam por perder uma alma sofrida...

Os que se sagram dominadores dos seus destinos,
hão de sagrar-se, com certeza, mais que divinos!

Há que deixar de viver na futilidade...

Ah, o atingir a espiritual imortalidade!

(A.O.)

Masoquismo

É tempo de deixar
que seja o mundo dominado pelas gentes
que nada mais querem que pensar...
Que se partam nas alamedas os nossos dentes!

É nada mais que uma rutura
de uma imensa intensidade
aquilo que proponho na cultura...
Que se tragam agora dor e vivacidade!

É uma vaga pútrida mania,
esta masoquista e brutal existência,
que quero que me esmurre com as pedras da agonia...
Que se revele na dor a nossa essência!

É este o lugar para que se faça
uma dolorosa mudança por meio de mutilações,
que atraem a alma como a luz atrai a traça...
Que se encham as ruas de exibições!

Chamo o presente turbulento!
Evoco mais nada que a minha ira!
Gritando, abandonei a lira,
assumindo um futuro bruto e sangrento!
Mas que sentido faz, não ser assim,
derrotado e espancado pelas ruas?
Neste inerente masoquismo que há em mim,
correm-me pela alma sensações nuas!

(A.O.)

sábado, 20 de outubro de 2018

"Árvore"

Uma árvore podre
e subjugada pela ocasião
a uma agonia em maldição do destino,
caminha.

Vai andando,
de ramos jovens e selvagens,
a árvore em direção ao abismo,
como um batalhão de gente,
com um sorriso na cara.

Sabendo de todo o seu medo,
a árvore ri-se a inevitável derrota,
a morte da sua humanidade...
Caminha a pútrida árvore,
de fracos ramos e impuras raízes,
com nada mais que alegria...

Vai morrendo a árvore,
mas
com as almas de quem não sabe da morte. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Quero lamber a vida...

Quero lamber a vida!
Um qualquer viver de divindade,
vivendo na insana futilidade
de ter a alma invertida,
daquilo que se diz normalidade,
por mais que não seja esta vivida!

Não quero uma alma parada,
num pequeno e parvo espaço.
Prefiro ter a vida acabada
e que seja brutalmente escasso
o que me faz puramente viver...
Ah, que quero agora morrer
se não puder ser mais que um fracasso!
Não se dará minha vida por derrotada.

Espero não vir a perder
a vontade, gritando assim, de fúria

Isto é um rimado escrever,
onde se vai cantando o mundo.
Vai-se gritando a minha lamúria
para ser algo mais profundo
Do que aquilo que pareço ser!
Ah, que quero ficar para a História!

Não procuro nada mais que a glória
com a qual não pude crescer...

(A.O.)

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Alberto - Um velho

Foi no metro que conheci o Alberto - não o conheci, nem tão pouco sei se o seu nome será ou terá alguma vez sido "Alberto" -, mas para mim foi sempre esse o nome dele, pelo pouco tempo em que o vi e pensei tê-lo conhecido.
Alberto era um velho, careca e simples, que tinha acabado de sair do dentista, trazendo ainda resultados da sua última consulta nas suas mãos, marcadas pela idade, e entrado no metro de Lisboa, como se para voltar para casa, para junto da sua mulher...
Assumo que Alberto tenha mulher, não querendo ser mais nada que certo, na minha perceção daquilo que era o homenzinho que se sentou brevemente à minha frente num transporte público e que me fez pensar em escrever este texto sobre um velhinho qualquer da capital...
Voltará Alberto para casa, para uma mulher que ama (ou finge amar, apenas, talvez, pelo que poderá ter sido qualquer tipo de casamento de amor fingido - ou talvez tenha o amor acabado à muito e nenhum deles quer morrer sozinho)...
Depois de voltar para casa, verá a programação de sempre: aqueles programas em que gente ganha coisas, que podem ou não ser apresentados por obsesos comediantes, as notícias, que hoje em dia apenas servem para que se oiçam grunhidos do velho homem e, claro, as novelas da mulher...
Alberto não gosta das novelas da sua mulher, nem gostará assim tanto da mulher, mas fica casado com ela pela conveniência de se afastar do medo da solidão; e o que se diz por aí é que a mulher faz exatamente o mesmo!
Este velho de cara chapada, contornos da sua idade, pouco cabelo e óculos pequenos estava à minha frente, sentado com toda a simplicidade de idoso que já viveu muito, que não viverá muito mais, agora, procurando uma rotina normal e ordenada?

Que esconderás, Alberto, meu velho companheiro de carruagem?
Terás visto guerras e revoluções, um mundo em mudança e constante perigo?
Conta-me histórias com as tuas feições apenas, deixa-me que descubra quem és, Alberto...

terça-feira, 9 de outubro de 2018

"Procurando a sensação absoluta"

I
Olho para os meus óculos e suspiro,
mas não há poesia que acalme a minha ânsia!

Tomo as letras como sentimento,
procuro criar essa poesia,
usar palavras para sentir tudo,
porque não o sensacionismo?

II
Desfaço-me em poemas,
devo fazer ódio e alegria nos versos,
mas primeiro...
Primeiro...
Primeiro incita-se a violência...

Para que me desfaça,
terá de haver violência,
maior que aquela entendida num suspiro
mirando um par de óculos...
Violência a sério,
violência à bruta e verdadeira!

III
Corro pelas pedras das ruas
e salto pelo alcatrão das estradas
que acompanham as grandes avenidas.
Nada disto é verdade,
mas é sentido como real.

Tropeço com a rapidez do meu passo,
vindo a rebolar
pelo chão que me vem a rasgar,
esfolar, ferir, mutilar,
até que possa morrer-me totalmente a alma.
Há ódio próprio em tanta chacina,
sendo que me odeio à medida que sou desfeito.

IV
Ali fico,
massacrado como a inocência de uma virgem
que descobre a liberdade de ser cruel...
Ali deitado,
entre carros que me atropelam
e as pessoas que nem me olham,
exaustas do que é moderno...

Totalmente desfeito de mim,
poderei fazer do que sou qualquer um,
provando-se a dor de morrer uma dádiva
de um sensacionismo hiperbólico.