quarta-feira, 19 de setembro de 2018

"Mundo aos Lunáticos"


A meu ver,
que dancem os lunáticos,
nus nas ruas,
gritando a morte dos seus líderes!

Porém,
que apenas o façam
caso
forem verdadeiramente lunáticos,
sendo
que apenas são lunáticos aqueles verdadeiros humanos.

Que se acordem os doidos das sepulturas,
para correr as avenidas com excentricidade!
Que se cantem eulogias aos antigos mortos,
para que nos façam a nós mesmos modernos!
Que sejam, então, os lunáticos a fazê-lo,
para que estes possam trazer mudança e revolução!

No meu olhar,
pouco é melhor que ressurreição
desta antiga tradição,
apenas para que a matem os lunáticos que dançam,
trazendo depois melhor!

O mundo pertence aos excêntricos,
dos que dançam o desprezo à vida aos que o matam essa mesma dança!
O mundo pertence aos lunáticos,
dos que reclamam a morte aos líderes aos que combatem o inferior apenas por ser inferior!
O mundo pertence aos malucos,
dos que se riem do absurdo aos que nada fazem que não causar o absurdo!

Se à futilidade pertence a existência,
porque não pertence já a existência àqueles que melhor usam a futilidade?
Que assim seja!
Que assim se faça!
Ceda-se o mundo aos lunáticos,
aos excêntricos,
aos malucos!
Deixe-se que governem tudo, para que possam ser as civilizações puramente verdadeiras…
Sim! Puramente humanas, serão agora as pessoas,
lideradas por quem se apercebe da realidade de ser.

Ah, que se dance nas ruas ao sabor desta gente!
Lancem-se desfiles e paradas pelas cidades!
Celebre-se a futilidade e celebrem-se aqueles que a conhecem,
com fogos, motins, paradas e explosões!
Faça-se um ruído extremo,
faça-se um barulho de revolução!
Ah, que se acorde Deus desde as ruas cosmopolitas,
para que Ele se lembre que é inútil!
Para que Ele morra de vez!

Morra Deus!
Perante a berraria humana,
governada pelos lunáticos,
que morra qualquer conceito de divindade!
Que morra qualquer ideia do sagrado,
que pereça a necessidade de acreditar em falsos paraísos!

A era dos que não se escondem por trás de promessas de símbolos…
É isto que está certo acontecer,
para que seja revelada a verdadeira Humanidade!
A Humanidade que não se contenta com o medo da ação devido ao julgamento,
seja este divino ou puramente social…
A Humanidade que não se conforta com propósito ou razão,
e que, portanto, não se inibe nem se esconde de nada!

Esta será a real Humanidade!
Esta será uma verdadeira existência!
Que venha, então, uma Idade negra,
perante um novo regime de dançarinos e palhaços, 
que confrontam a escuridão!

Venha uma Era sem propósito,
em que apenas têm razão os que sabem que não há razão!

sábado, 15 de setembro de 2018

"Fuga"


‘Foge!’
Falo assim comigo, num grito agonizante que não cessa.
Assim me ordeno e vou fazendo isso: evadindo aquilo que não quero enfrentar, numa perpétua distração da vida.
Como me persegue tudo o que é horrendo, continuo a correr, sempre meros passos à sua frente.
Sinto, por vezes, o toque macabro de algo mais, que pode estar a correr mais rápido que tudo o resto.
Porém, passo a vida a correr, cavalgando apenas na minha ansiedade, cavalo sem nome ou razão de existir.  

Desmontar, agora?
Parar a correria parece apenas uma forma de deixar com que me apanhem vida e morte.
Fazer frente a este violento bombardeamento de mim é despropositado e mortal…
Nada faria senão ceder perante o fogo! E que se daria dentro deste fogo? O meu fim mortal, por tudo o que sou?
Não saio das costas deste cavalo gritante e frenético porque ao seu frenesim me habituei, simplesmente.
É familiar, a este ponto, não fazer nada para tentar defender-me, pensando que me afundaria mais se o fizesse.

Pondero o confronto das ondas…
O pensamento de tais águas traz-me o pânico do afogamento, vindo então a sufocar-me…
Fico, então, à superfície da água, flutuando por uma realidade que me é estranha pela falta de investimento que nela tenho.
As coisas deixam de fazer sentido, porque não posso permitir que o façam…
Significaria deixar de fingir, tirar a máscara, sair do cavalo e levar com tudo aquilo de que fujo há meses…
Orgulho-me de nada, mas menos sofro pela ideia repetida de falta de confronto que arrasto pelo chão ao longo destas palavras….

Merda!
Esta amostra de poema não faz nada para arte, apenas anda às voltas nos meus pensamentos, pondo em palavras o que me perturba!
Este velho cavalo, num pânico constante, tem apenas energia restante para fugir...
Usando palavras mal arranjadas, descrevo um animal inexistente, que me carrega, com membros cansados…
As linhas escritas esta noite fazem tanto sentido como a própria vida: algo enfeitado com pouca beleza que não é nada mais que vazio quando melhor examinado…
Contudo, continuo a escrever, sem saber a razão pela qual o faço, frases que me atacam lentamente.

Morrerá o cavalo, eventualmente…
Não há otimismo em prever o que se dará quando for destruído pelo que me assombra, mas poderá haver para o que vem depois.
Que se chame a isto uma ilusão poética ou apenas vaga estupidez, mas há esperança em mim de que o cavalo possa descansar.
Quero apenas permitir que o animal repouse e renascer com a força de quem se enfrentou, voltando do desastre.
Será possível?
Deixem-me acreditar que sim, esperando a morte do cavalo…

(Uma mentalidade aleatória, resultante num poema de merda)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

"Inferno"

É o Sol quem me ilumina como anjo caído,
puxando-me
por tudo aquilo que já foi perdido…
Mostrando-me
quem pensava eu ter morrido.
Apenas pelas suas palavras vou vendo
quem acabaram estes humanos sendo…

Vou sendo guiado por um poeta,
neste inferno
depois das praias do meu ser…
Ah, como é fanático, o profeta,
filósofo eterno!
Veio inspirar-me a escrever!

No calor de todo o meu tédio, vou descendo até aos confins do significado, acompanhado por quem tem, melhor que eu, qualquer dom de palavras e iluminado pela Estrela da Manhã, sem a qual nada vejo…

Que encontro na profundidade que não sejam artifícios de espetáculo, rodeando a miséria numa boémia meio vazia, que tão bem reverenciada por quem me guia que este, que sofre tédio também, encontra nela cura?

Questiono-me, mas vejo apenas isso, mesmo tendo uma já morta esperança de que mais se consiga encontrar: uma linha de importância entre tanta irritação e fútil festa, que dê significado a esta feitiçaria tão bela e moribunda!

segunda-feira, 30 de julho de 2018

O Não-Fim

Sou uma anarquia cansada,
um revólver mal carregado e deixado em casa
de um velho pistoleiro reformado,
que ainda espera os seus tempos de glória…
Não fiz nada senão trabalhar um campo,
enquanto via a vida passar
e os velhos tempos desvanecer…
Ah, que ergueram cidades e florestas de betão,
onde tinha eu as minhas memórias de árvores felizes!
Ainda tenho eu as emoções antigas,
das matanças das guerras e das mudanças…
Como me eram calmantes aquelas visões dos campos que agora não o são…

Sou uma revolução das grandes,
daquelas que se sonham e nunca se fazem,
e que, quando se fazem, conseguem ser tudo menos o que se espera,
como uma pobre antecipação do povo…
Não dei em nada senão em mais revolta,
a plebe continua furiosa!
Levantam-se bandeiras
e marcham em linha, ao ritmo de si mesmos,
todos aqueles que ainda me têm no espírito,
por não estarem satisfeitos com o meu resultado!
Nada acabou ainda!

“All That Once Shined”


Brilha agora mais uma vez tudo aquilo que outrora se banhou ao sol de uma glória que pensava estar extinta completamente: os meus dias vida num verão que pensava nunca mais chegar. É com alguma velocidade de viver que nos fazemos todos ao êxtase e à boémia que se pode obter numa pequena cidade à costa, no Sul de um país assim… E que voltem os momentos do passado que agora relembro com saudade de quem está morto, tendo uma vez sentido vida própria e propósito.
Foram esses tempos distantes os meus dias de propósito e de alguma felicidade, em que nada precisava de fazer sentido porque tudo tinha uma razão de ser, ou assim o pensávamos. Mesmo sentindo-me incapacitado para escrever a horas altas, avanço com as letras e com um dom mal treinado, descrevendo a minha lembrança de tempos que agora me fazem querer chorar de nostalgia e poder convencer qualquer divindade ou universo distante e frio – digo isto pela minha certeza da sua frieza inerente – a deixar-me voltar a tais ocasiões…
Porém, não me deixam! Sou forçado por tudo aquilo que é lógico e natural a ficar sujeito à movimentação do tempo e a aceitar que vida continua, abandonando-se os bons velhos tempos como se abandona um ente querido morto, que fica simplesmente vivo na memória… Na minha memória, então, ficam estas vivências da estupidez do passado, quando éramos um bando inocente de solitários fúteis sem razão de ser ou noção que assim o éramos e é aqui, apenas, que fica esta minha antiga vida! Ah, que tudo o que brilhava anteriormente simplesmente morreu, desaparecido nas areias do tempo que me pesam como tudo na consciência!
Mesmo sabendo isto, não vejo outro remédio senão tentar recriar estes tempos únicos e gloriosos, na esperança de restituir toda a minha antiga felicidade. Assim se fez nas noites anteriores a esta, correndo de ponta a outra deste poço de história à velocidade dos tempos antigos para que se pudesse reacender em mim a sua chama…. Diria que é uma demanda nobre, aquela de querer viver outra vez, buscando a vida eterna da alma jovem que quer descobrir e viver constantemente o que é novo e, por dizer que é nobre, assim o tentei fazer, com algum sucesso. Que novas almas e memórias, entre perguntas parvas e cones de trânsito puxados até casa por filósofos, vim a encontrar com esta vida!
Saio desta tentativa de glória com satisfação e náusea, mas esta segunda acompanha-me sempre.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Sufoco

O que é um ser bifurcado?
É um que existe entre identidades que não são a sua,
amando diferentes parecenças…

Bifurcada, existe sempre a pessoa,
na encruzilhada que a separa daquilo que verdadeiramente é…
Não há caminho nem alternativa que não aperte…

O que é uma pessoa senão um torniquete?
Torce-se à força toda a humanidade de ser assim,
buscando aquilo que se é…

Torcido é um ser que se espreme todo para ser,
porque a sua essência não é descoberta de outra forma…
O sonho da descoberta aperta a realidade!

O que é uma identidade senão um sufoco?
Vai-se fazendo uma tortura à alma para se conhecer,
para que conviva com tudo o resto…

O resto é nada mais que a insignificância
de um mundo que nunca se fingiu importar…
Este mundo que tudo impõe ao ser, sufocando-o ainda mais...

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Pavoneando sobre o Universo - I


Vejo o universo inteiro no regresso cansado. Estou num retorno que é apenas simples retorno, que é apenas temporário, por mais permanente que possa ser. É temporário porque é tudo temporário, como aquilo que posso ver, quando me imagino disposto na linha do tempo que ainda tenho para cá estar, seja nesta vida ou neste lugar no qual me encontro de regresso, com fraqueza de alma e estupidez das minhas emoções…

Movendo o meu corpo acima do chão,
vou balançando e vejo todo o universo…
Caído na realidade de um corpo astral,
motivo-me a mim mesmo a ver para lá desta Terra…
Recuperei-a!
A minha visão inteira de um plano astronómico…. Recuperei-a!

Tenho-a de volta, por instantes, e por esse tempo, ela assombra-me como se fosse algo razoável, o ter medo do infinito e daquilo que nunca vamos conseguir controlar. É como se fizesse sentido, o susto da pequenez humana que por mim é sentida naquele momento, ao confrontar-me com a mortalidade das estrelas, com a sua distância e com tudo mais que o céu noturno me mostra.

A miséria cósmica
das luzes projetadas na tela do céu da noite,
que me fazem passar por um parvo com megalomania,
que fazem a Humanidade inteira passar por um parvo com megalomania,
porque revelam a nossa insignificância!
É isso que tenho de volta,
depois de o perder há tempos atrás,
quando imaginava universos ao olhar para um céu pouco iluminado…

O sentido de nada fazer sentido…
A vertigem de olhar para o Definitivo…
O terror da escala de todo este monstro que nos rodeia nos astros…
O medo da pequenez humanitária…
O pavor da Insignificância!

Ah, como tive saudades de me sentir afogado na liberdade que a grandeza universal me dá, e da febre que com ela vem, de saber que não há limites às desinibições da minha pequena estupidez! Sufoco-me nesta escala toda e aceito que o universo pouco se importa, libertando-me de deuses, santos, astros, destinos e banalidades comuns, pois isso para mim pouco me importa! Agarro com os dentes as oportunidades de tudo aquilo que existe, que não tem a mais pequena demonstração de carência pela minha existência, pois tão pouco terei eu qualquer carência pela sua, e vivo! Por momentos, consigo estar vivo…