Não há coerência na existência de linhas literárias que se
escrevem em documentos que nunca serão reais. Não! Nunca serão literatura…
Lidos apenas por mim e, quem saberá, por Deus, estes pedaços surreais de treta
pretensiosa do núcleo de que sou não são grande coisa, porque eu próprio não
sou grande coisa.
“Ah, aqui vamos nós, mais uma vez! Preparem-se, populações!
Aproximem-se, senhoras e senhores, que chegou o circo à cidade. Temos
espetáculos: 24 horas por dia de fingido ódio próprio que não esconde nada a
não ser um ego enorme! Um milagre da Natureza, um prodígio que apenas se vê em
todos os outros lados em que se procura! Deixem que o espetáculo comece e
apreciem um homem que se mutila mentalmente, à procura de conter uma autoestima
verdadeira!” (Entrada livre)
Estou a começar a ficar farto de escrever outra vez…
“Os palhaços assassinos chegam à cidade! E não, desta vez
não há esperança para mortos bobos da corte desempregados! São inúteis, as
criaturas, mas venham ver, as infernais caricaturas! Desde figuras públicas,
uma paródia mal informada, a tudo o que está mal com a humanidade! Isto apenas
feito pela própria humanidade! O espetáculo destrutivo fica só mais rico com o
tempo! Assim é o mundo! Entrem, entrem!”
Mas quem manda no circo? Não há resposta, ninguém sabe
seriamente, só os que vivem dele sabem a verdade, e mesmo nem todos o sabem.
Alguns vivem das mentiras sobre quem conduz as aberrações de aldeia em aldeia…
“Vamos, vamos! Continuem! Serão salvos, meus amigos! Há uma
razão, cá dentro! Há milagres, magia, mas mágoas? Meu homem, jamais! Sejam quem
forem, acreditem que encontram tudo neste circo! Sejam colhidos pela magia do
impossível, que não vos rouba nada!”
Como ovelhas, eles entram…. Estão fascinados… Porque razão
não o estariam? Foi-lhes prometida a eternidade, longo tempo em que apenas são,
e são felizes. Não há que pensar…
“Não é preciso pensar, não precisam de saber mais! Entrem,
meus caros! Vamos, vamos! Que chova a atenção a nós! Nós? Sim, nós! Somos os
melhores no que fazemos! Adorados e galardoados! Entrem no sonho das vossas
vidas! O circo chegou à cidade! É tempo de festa, venham ver-nos! Um espetáculo
irresistível de exagero e fantasia!”
O resto fica de fora do circo… Desempregados que não lá trabalham, ou
pessoas sem paciência, que se aperceberam da realidade, do que, na verdade, é
este circo. O resto fica de fora, mas já todos fomos, felizes e enganados por
esta ilusão.
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