segunda-feira, 4 de junho de 2018

Sufoco

O que é um ser bifurcado?
É um que existe entre identidades que não são a sua,
amando diferentes parecenças…

Bifurcada, existe sempre a pessoa,
na encruzilhada que a separa daquilo que verdadeiramente é…
Não há caminho nem alternativa que não aperte…

O que é uma pessoa senão um torniquete?
Torce-se à força toda a humanidade de ser assim,
buscando aquilo que se é…

Torcido é um ser que se espreme todo para ser,
porque a sua essência não é descoberta de outra forma…
O sonho da descoberta aperta a realidade!

O que é uma identidade senão um sufoco?
Vai-se fazendo uma tortura à alma para se conhecer,
para que conviva com tudo o resto…

O resto é nada mais que a insignificância
de um mundo que nunca se fingiu importar…
Este mundo que tudo impõe ao ser, sufocando-o ainda mais...

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Pavoneando sobre o Universo - I


Vejo o universo inteiro no regresso cansado. Estou num retorno que é apenas simples retorno, que é apenas temporário, por mais permanente que possa ser. É temporário porque é tudo temporário, como aquilo que posso ver, quando me imagino disposto na linha do tempo que ainda tenho para cá estar, seja nesta vida ou neste lugar no qual me encontro de regresso, com fraqueza de alma e estupidez das minhas emoções…

Movendo o meu corpo acima do chão,
vou balançando e vejo todo o universo…
Caído na realidade de um corpo astral,
motivo-me a mim mesmo a ver para lá desta Terra…
Recuperei-a!
A minha visão inteira de um plano astronómico…. Recuperei-a!

Tenho-a de volta, por instantes, e por esse tempo, ela assombra-me como se fosse algo razoável, o ter medo do infinito e daquilo que nunca vamos conseguir controlar. É como se fizesse sentido, o susto da pequenez humana que por mim é sentida naquele momento, ao confrontar-me com a mortalidade das estrelas, com a sua distância e com tudo mais que o céu noturno me mostra.

A miséria cósmica
das luzes projetadas na tela do céu da noite,
que me fazem passar por um parvo com megalomania,
que fazem a Humanidade inteira passar por um parvo com megalomania,
porque revelam a nossa insignificância!
É isso que tenho de volta,
depois de o perder há tempos atrás,
quando imaginava universos ao olhar para um céu pouco iluminado…

O sentido de nada fazer sentido…
A vertigem de olhar para o Definitivo…
O terror da escala de todo este monstro que nos rodeia nos astros…
O medo da pequenez humanitária…
O pavor da Insignificância!

Ah, como tive saudades de me sentir afogado na liberdade que a grandeza universal me dá, e da febre que com ela vem, de saber que não há limites às desinibições da minha pequena estupidez! Sufoco-me nesta escala toda e aceito que o universo pouco se importa, libertando-me de deuses, santos, astros, destinos e banalidades comuns, pois isso para mim pouco me importa! Agarro com os dentes as oportunidades de tudo aquilo que existe, que não tem a mais pequena demonstração de carência pela minha existência, pois tão pouco terei eu qualquer carência pela sua, e vivo! Por momentos, consigo estar vivo…

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Elevação ao divino


Procura elevar-te,
ser mais do que tu és,
em mais maneiras do que és…
Procura que em ti nasça um desejo,
desejo antigo de mais,
que antes era atingido por menos que tu tens.
Ah, mas que agora que nasceste é diferente!
Agora queres mais que eles dantes,
porque te achas mais e melhor que eles
e por isso não tens o desejo!
Mas procura,
porque vale a pena procurar a elevação…

Já te nasceu o desejo à divindade,
dá para ver pelos teus olhos.
Estás diferente, mais astuto e determinado.
Estás modificado, a tudo estás aderente,
pelo que se nota que o desejo nasce.
Que belo nascimento!
O nascimento de um desejo de elevação,
de ser mais que tu,
de ser mais que mais que tu,
de ser divindade,
de até ser mais que um deus!

Que se desafiem as religiões do mundo,
porque queres tu o poder,
queres tu agora ser o deus dos homens,
venerado na tua insatisfação por não seres nada!
Como és parvo por te veres assim,
e como são parvos os outros por não acharem de ti isso.
Ah, que nasceu!
Ah, que está cá o desejo de ser maior que tu…
Tornaste-te uma génese daquilo que queres ser,
uma génese que não passa disso,
ser que nunca se realizará…

Mas perde-te…
Vá, perde-te,
naquela futilidade do desejo de megalomania,
naquela vaidade da sede de poder,
naquela inutilidade do humano!
Perde-te no desejo de melhorar e eleva-te,
porque só assim é que melhoras,
porque só assim é que vives!
Tu que quebras o impossível e atinges o divino,
numa superfície mental que é só tua,
numa visão social e irrealista que não é de mais ninguém…
É só tua,
toda tua,
esta vontade de seres tu e mais que tu!

Sê assim,
completo e divino,
divino e completo,
completamente divino
e divinamente completo!
Sê como és,
uma sé da fé qualquer que tens de ti,
o seu único praticante!
Sê só,
sozinho em câmaras de ti,
porque as câmaras que criaste despropositam os outros…
Pois despropositam, não é?
Os outros,
que inúteis que são,
mas não são inúteis para poder dizer-se que és um deus!

Elevas-te besta, em solto verso,
porque mereces,
és humano e mereces ser uma besta do submundo,
um monstro divino de ti mesmo,
forjado da parte forte e feia da sua vontade,
também ele feio, forte e cheio de vontade!
Elevas-te acima de tudo,
porque assim te achas,
superior aos anjos,
igual a deuses,
ou superior a eles, tal é superioridade ti!

Elevas-te, agora que te vejo,
e é admirável que te eleves…

Tornas-te o sonho dos homens,
abandonando os homens,
descartando quem és,
trocando identidade pelo poder de seres mais que tu!
Era isso que queiras, não era?
Já não és humano!
Já não és nada,
senão a besta de um deus,
um deus que é uma besta, porque é uma besta que se elevou a deus!
És tu, isso,
repara bem, meu monstro divino,
armado da sabedoria eterna,
mas que não consegue ser belo ou bom!

Ah, mas agora satisfizeste-te!
Cumpriste o desejo de seres mais,
chegaste à realização de ser divino!
E agora? Onde está o teu desejo,
para que lutas com a natureza,
para que guerreias com a vida,
se ganhaste todas as lutas com o natural
e conquistaste a morte com o poder?
Ah, descobriste o que é divino e gostaste,
aliás, até gozaste demasiado do que encontraste,
mas eis que morres,
estagnado no aborrecimento!
Eis que cais para o tédio!
Eis que amaldiçoas o poder,
porque agora é tudo fácil,
agora nada há que fazer e tudo já foi feito antes,
mesmo quando é tudo original!

Cais em ti mesmo e percebes que a divindade não é desejável.
Queres voltar atrás, por isso abdicas de tudo para viver outra vez sem desejo…
Doce eterno retorno…

terça-feira, 10 de abril de 2018

Universo


Nas quatro paredes que contêm um universo,
sinto uma extensão do meu universo,
sem sentir a maior grandeza de um colossal cosmos,
ou pensar numa monstruosidade espacial exterior…
Não consigo pensar nisto!
Não posso encarar a escala de tudo!
Pensar na minha própria inexistência cósmica
é impossível da pequenez do meu mundo privado…

Tudo o que existe
são as minhas ideias de tudo aquilo que existe…
Tudo o que vive no universo
vive dentro da construção do meu próprio pensamento!
Preso fora da realização de tudo o resto,
a minha mente consegue criar tudo dentro desta cela,
destas paredes que apresentam como novos astros!
O egoísmo mental de se pensar nisto…
A megalomania de pensar assim…

A imaginação limita o cosmos,
reduzindo a realidade para a falta de propósito,
que se vive diariamente sem o mundo exterior…
Sem o mundo exterior,
criando tudo com a mente…
A poderosa mente egoísta que se acha divina!
A convencida estupidez de um novo nascimento cósmico,
que é um milagre existencial de um solitário poeta!

Grito, poeta cósmico do pessimismo,
preso na cela mental,
de quatro paredes que me fecham na significância,
ilusória,
de criar universos despropositados!
Grito pela criação de novas realidades gigantes,
novas estrelas e astros encerrados numa realidade mais pequena,
sem a realização de mim,
do quão pequeno é este novo universo!
Grito por tudo o que existe aqui,
e apenas por aquilo que existe aqui,
encerrado neste espaço pequeno,
pela simples razão que mais nada existe!
Pelo estúpido motivo que não há mais que o que me fecha neste espaço!

Derroto-me no terror desta subjetividade,
que me faz esquecer,
mais uma vez, a escala…
Fico imóvel, em meditação desta ordem astronómica,
e visualizo uma dança anárquica,
que tem tanta insignificância como beleza…
Manifesta-se tudo na vida, e grito por uma maior criação!

sábado, 3 de março de 2018

Na forma e na doença

Os gritos da melancolia de anteriores mortos,
com uma angústia miserável,
As ânsias da vida dos que partiram,
com uma terrível raiva a tudo,
As tristezas de todos os nervosos homens...
Faz isto abanar o meu ser em mais nada que nada...
Faz isto em mim espasmo,
de batimentos cardíacos e preocupações vazias.
Ah, fazem uma vida cheia
da riqueza de estar a ser atacado pela fútil neurose insatisfeita!

Um corpo que morre,
num espírito que é executado por tudo,
sem qualquer boa razão para tal execução...
Calculada, experimentada e humana!
Médica, metódica e miraculosa!
Uma fantasia da cura de tudo e mais alguma coisa,
esta execução de corpo e mente sem razão!

A indecisão assenta...
Sob efeitos do universo humano escrevem-se versos,
inspirados em artificiais estrelas,
que naturais apenas têm o facto de serem humanas...
Doente, sob a égide do cosmos,
desdobrando a frieza da vida e do Infinito,
sonhando as viagens da aventura e da descoberta em tempos difíceis,
não se faz mais nada...
Escreve-se!

Na imensidão do universo,
criado na imaginação dos homens pensadores,
criado em honra dos seus grandes titãs,
vê-se um lugar sonhado para a criação...
Arranjando e dispondo mundos e imagens,
desvanecendo-se o sentido de novo,
mantém-se o mesmo no mundo apenas com a forma de dispor mundos...
O original individualista
e o romântico convencido,
afogados no seu ego artístico de divindades da simples Humanidade...
Juntam-se à neurose e aos gritos do passado,
escrevendo, doentes em mim,
numa noite de fins de frio infernal...

A confusão mental não para,
como o tempo, a poesia, a vida e morte...
Na sua fúria assaltam-me os sentidos sem remorsos.
Na minha existência, ataca-me tudo,
tudo...
Tudo menos qualquer parecença de sentido!
Encaro as últimas palavras deste monstro sem motivo,
e sobrevivo a mais um poema...

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Deus III

Ofereça-se uma forca a Deus, 
Pois a esperança dele no moderno morreu...
Pendura-se o Criador pela corda, 
Deus está morto!
Deus partiu para a vida eterna!
Aleluia...

Choram os religiosos, 
Os humanos, 
Aqueles que se entristecem pela morte do líder...
As lágrimas dos crentes, 
Que inundam as páginas do livro, 
Distorcem toda a História das preces...
Apagou-se a vinda do divino!
Acabou tudo o que é sagrado, 
Notando-se que chovem anjos do Céu, 
E que demónios regressam mortos à superfície. 

Outros alegram-se, 
Livres da escravidão, 
Escravidão das escrituras do tirano, 
Que se ocupava de tudo
Para razão de vida, 
Sendo a essência do Homem
Nada mais que servidão...
Estão livres os escravos da teologia!

Deus e o bem morrem, 
Em praça pública,
Dois enforcados num só...
Porque o bom senso dos antigos
Já merecia abandonar a humanidade.
Aleluia para a estupidez!
Aleluia para a futilidade!
Aleluia para o absurdo!

domingo, 14 de janeiro de 2018

Caixa

I - Caixa

Numa caixa,
Fechado, simplesmente existindo…
Vejo-me um ser que nada é,
Mas consegue ser, de uma forma,
Ou de outra forma,
Não interessa, está escuro…
Não me vejo.

Não me vejo, então não existo,
Porque está escuro na caixa,
Porque sou, talvez, apenas esta espaçosa caixa,
Que me sufoca com claustrofobia…
Aqui não sou nada,
Simplesmente nada…

Como digo,
Para mais ninguém que eu mesmo…
Não há mais que o presente,
Não mais existe que a caixa

II - Tempo

Anos passam,
Passam lentamente,
Rodeados e preenchidos de pensamentos,
Instintos e sentimentos.
Tudo aquilo que faz um humano,
Trancado no inferno de uma solitária caixa.

Não sei porque não morro,
Não sei porque não me mataram,
Não sei até porque não me matei a mim, ainda.
É humano, o amor à vida,
É o que suponho,
Nesta mísera vida de caixa.

Cresci, neste tempo,
Incansável, sofro, sem entender o que se passa.
Crueldade da vida que aqui me pôs!
Ódio da criação de quem vive esperando a morte,
Num mundo em que não há nada,
Não, nada!
Nada que não seja aprisionada existência

III – Visão

Visão incrédula do masoquismo,
Abre-se lentamente a caixa!
Estou livre! E para lá corro,
Corro, corro, corro… Para a saída, para o mundo…
Para que acorde e perceba a ilusão,
Em que o sonho da abertura da caixa,
É tão fútil como o da razão para viver assim.

Sofro mais tempo,
Sejam dias, semanas, meses ou anos,
Fico e, assim, sofro nesta caixa,
Sem nunca saber mundo fora da amaldiçoada caixa...
É inútil pensar na saída de algo assim,
Por isso, tenho, perpetuamente, pensamentos e sentimentos.

Ah, qual a razão da minha vida?
Maior miséria eterna de estar.
Estar, existir….  Apenas isso conduz o humano à loucura.
Fico na caixa, esperando esperança.
Esperando esperança e respostas…
Obtenho apenas agonia!

IV – Fim da Vida

É aquilo que se acha um triste dia,
E morrem ossos contra as paredes da jaula,
Fechada e tímida no respeito à vida,
Sagrado inferno,
Em que me banho de desejo de morrer!
Chega da caixa que me limita tudo…

Desisto,
Em credos de existência,
Trago um final ao fim de tudo o que sou.
Contra as paredes!
Contra tudo, e contra o mundo!
Morrerei aqui, com embates violentos no metal,
Fraturando euforicamente o meu ser!

Nem a morte consigo,
Estendido no chão, sem perder os sentidos,
Além do sentido da vida, que perdi há muito,
Essencialmente, assim fico,
Como se morto, como sempre fui…
Desisti, agora fico imóvel…
E oiço o real ranger da porta abrindo.